Crítica | A Mensageira (El Mensage), 2025 (Argentina/Espanha/Uruguai): "A vida acontecendo entre a poeira das estradas e um não-lugar"
- Pê Dias

- há 32 minutos
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“É uma menina muito especial, com dons muitos especiais. Bem, neste momento, ela está como uma menina normal, digamos. “
“Não, ela é uma menina normal”
Nos cinemas

A pequena Anika não possui um animal de estimação. Cabem nela todos os bichos de mundo e de outras dimensões.
Uma trupe formada pela garota Anika (Anika Bootz, El Infierno de Los Vivos, 2024) e dois adultos, Myriam (Mara Bestelli, Invisível, 2017) e Roger (Marcelo Subiotto, Puan, 2023) percorrem numa van estradas rurais do interior da Argentina, vendendo os serviços de comunicação de Anika com os animais de estimação das famílias, aqui chamadas mascotes, descobrindo do que estão sofrendo ou o que estão tentando comunicar aos seus tutores. A chamada canalização acontece também com animais que já morreram e cujos tutores, continuam em luto.
El Mensage, em seu título original que significa A Mensagem e, pra mim, faz mais sentido, é um road movie de contemplação. A escolha da fotografia em preto e branco (Gustavo Schiaffino) parece nos arremessar num ambiente onírico de fábula, um não-lugar, um espaço vazio e solitário de estradas poeirentas e, provavelmente, numa Argentina rural marcada por governos neoliberais que não relutam um segundo sequer ao saquear o país e acabar com direitos fundamentais. É possível pensar também que a fotografia escolhida simbolize uma população que sobreviva com o básico do básico, recomendo a bela crítica da Neusa Barbosa do Cineweb - Critica A Mensageira).

Inicialmente, ao entendermos através das imagens e poucos diálogos o que a pequena e encantadora Anika faz, já julgamos mal esses adultos que supomos serem seus pais, o possível estelionato cometido, ao se cobrar dos tutores dos animais o serviço de comunicação, se aproveitando do luto das pessoas ou da angústia destes diante dos seus bichinhos doentes. E ainda, a exploração da própria criança.
E é justamente aí que o filme brilha. Focado nos silêncios e longas cenas de contemplação, desprovido de reviravoltas ou grandes descobertas, acompanhamos o dia a dia do trio embarcado numa van simples e barulhenta, não tão confortável, embora aconchegante. A falta de água durante um banho, a queda de dois dentes de leite, a arrumação da cama coletiva antes de dormir, o sanduíche dividido. Existe um cuidado evidente de Myriam e Roger com Anika que por sua vez está muito à vontade na convivência dos dois. Além do mais, há um respeito profundo de todos eles, com a atividade de comunicação, seja um estelionato ou não (eu sei que soou contraditório, explico mais à frente).
Não há um movimento “de bastidor” qualquer que indique que há ali uma mentira sobre o dom da Anika, que a certa altura descobrimos ser um dom das mulheres da família. E por mais que seja questionável o uso da criança para o serviço, começamos a nos afeiçoar a esta família andante, a contemplar as paisagens como eles, a encontrar encanto ao vê-los com suas respectivas cadeiras de praia fumando e descansando à beira de um rio cujas margens estão desmatadas e uma grande ponte de ferro, “suja” a paisagem com seus carros e escapamentos nada silenciosos.

Quem gerencia o serviço é Myriam, conversando com os clientes, explicando a logística do trabalho, marcando as sessões e até dando entrevistas. Através da bela interpretação da Mara Bestelli, acreditamos na dignidade e honestidade dessa personagem, funcionando como uma mãe amorosa e protetora.
Já Roger, passa praticamente o filme dirigindo, contando o dinheiro e contemplando silenciosamente cada lugar na qual percorrem. Mesmo que seu personagem não seja tão ativo na narrativa, é necessário um ator do seu escopo para alcançar a singularidade deste personagem. Menos é mais.
O olhar de Anika sobre as fotos encontradas dentro de uma revista folheada que podem indicar o passado artístico de Roger e Myriam ou a cena num parque de diversões revelam uma sintonia amorosa nessa família nômade.
A trilha sonora parece pontuar os momentos que antecedem o atendimento a um cliente com um toque melancólico e em outros, criar um clima durante a comunicação entre Anika e os bichos. Não é uma trilha invasiva porém, marcante nas cenas em que aparece.
O uso de planos conjuntos expõe os personagens à própria sorte nesse não-lugar com seus espaços enormes e solitários. Já o uso de planos detalhe e primeiro planos, esses, belíssimos, nos jogam dentro da van com eles: estamos ali a contemplar cada detalhe da vida que acontece naquela casa, ou porque não, lar, sobre rodas. Nos privilegiamos de um olhar mais distanciado dos acontecimentos assim como de um olhar mais íntimo.

O roteiro (escrito a quatro mãos pelo próprio diretor Iván Fund e Martím Felipe Castagnet) arrisca com diálogos objetivos e poéticos (quando se trata dos animais), tecendo sem pressa, possíveis respostas que fazemos durante o filme. Quem são essas pessoas e porque fazem isso. Myriam e Roger seriam pais de Anika. Quem é a moça visitada na casa de saúde mental. Entretanto, as respostas ou não-respostas caberá a cada um, sua interpretação guiada pelas próprias vivências, naquilo que preferimos acreditar diante de realidades tão difíceis. Caberá a cada um de nós também, decidir se temos uma fábula na qual Anika possui o dom ou se é tudo uma (bela) farsa.
Como diz a Myriam após mais uma sessão de comunicação, o contato com os animais podem trazer mais perguntas que uma resposta única ou definitiva; e cada pergunta pode levar a várias outras que aos poucos pode levar a uma resposta. Podemos expandir essa ideia para o próprio conceito do que é a vida. Ou à experiência de ver um filme que nos desafia à imaginá-lo para além do que a tela nos mostra.
A poeira das estradas vai levando nosso trio pela vida à fora, dentro de paisagens nem tão monumentais assim. Entre gato, cachorros, cavalo, capivara (sim, nossa querida capivara :) ) e ouriço-pigmeu-africano, temos notícias de Júnior, Pilcha, Chunchuna, Thirsson, Luna, Snoopy e Hayley. Mortos ou vivos, marcaram e marcam a vida de alguém.

Anika e seu pijama de luas minguantes ou crescentes falou com um pássaro, e este trouxe uma mensagem de amor.
Curiosidades: O filme foi vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Juri na 75ª edição do Festival de Berlim em 2025 (https://variety.com/2025/film/awards/berlin-film-festival-awards-2025-winners-1236316181/)
A atriz Anika Bootz é enteada do diretor Iván Fund (https://www.papodecinema.com.br/filmes/a-mensageira-3/)
Sinopse
Nas estradas empoeiradas do interior da Argentina, uma menina e seus avós atravessam pequenas cidades oferecendo sessões nas quais ela “escuta” e “traduz” mensagens dos animais. Mágica ou fraude, uma coisa é certa: o serviço é real e a inocência, um tesouro.
Gênero: Drama
Países: Argentina / Espanha / Uruguai
Ano: 2025
Duração: 91 min
Idioma: espanhol
Som: 5.1
Formato: 1.85 | P&B
Ficha técnica
Direção e roteiro: Iván Fund
Roteiro: Iván Fund, Martín Felipe Castagnet
Produção: Rita Cine, Insomnia Films
Coprodução: Animista Cine, Panes 360 Contenidos, Blurr Stories, Amore Cine
Fotografia: Gustavo Schiaffino
Montagem: Iván Fund
Direção de som: Leandro de Loredo, Omar Mustafá
Música: Mauro Mourelos
Elenco: Anika Bootz, Mara Bestelli, Marcelo Subiotto, Betania Cappato
Distribuição: Filmes do Estação
Serviço
Estreia no Brasil: 19 de março de 2026
Distribuição: Filmes do Estação




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