Crítica | The Plague, 2025 (EUA/Romênia)
- Pê Dias
- há 15 horas
- 7 min de leitura
O verdadeiro horror é como se formam as masculinidades
“Você se corta?”
“Pequenos cortes. É relaxante. Como o som do chuveiro”
(apresentado no Festival de Cannes 2025, na mostra Un certain Regart)

A frase acima é dita por Eli a Ben durante um momento em que os dois garotos curtem uma sauna, suposto lugar de relaxamento durante a sua estadia no Acampamento Aquático Tom Lerver. Uma trupe de garotos entre 12 e 13 anos está “internada” ― o local se parece muito com uma escola, durante as férias para treinar polo aquático. Sob o comando do professor “Daddy” Wags (Joel Edgerton, Sonhos de Trem, 2025) que até demonstra uma certa autoridade mas, não consegue se dar conta dos acontecimentos ao seu redor, acompanhamos o convívio desses adolescentes entre bullyings, pequenas agressões, zoação, muita desfaçatez e cinismo.
Em seu primeiro trabalho em longas o diretor Charlie Polinger consegue fazer de um cenário (ambiente fechado) e situação (adolescência) que poderiam soar clichês como premissa para filmes de horror, num filme intrigante e criativo. Aqui não há invenção da roda, mas o clima de tensão crescente, a semeadura da dúvida sobre a praga (ou peste) do título e uma discussão sobre a formação desses garotos, altamente tóxicos, faz toda a diferença.

Nosso protagonista Ben (Everett Blunk, Griffin In Summer, 2024) é o novato no grupo que conta com alguns veteranos, não por serem mais velhos, mas por já terem passado pelo acampamento em anos anteriores. Entre a ansiedade e alegria de experienciar algo novo, o garoto vai se aproximar da turma, se bem que, como estão confinados, nem há alternativa senão o convívio diário e, como um típico pré-adolescente, precisa fazer parte de um grupo, uma tribo, mesmo que isso signifique vivenciar violências.
Eli, dono da frase citada no início do texto, vivido através de uma atuação impressionante de Kenny Rasmussen (série Work in Pregress, 2019-2021) é o portador da tal praga ou peste, situação que o deixa à mercê de isolamento, agressões verbais e ridicularização. É possível imaginar, a dor emocional que transpassa esse garoto a ponto de que, a dor física é melhor e mais relaxante; a mutilação é a naturalização de uma escolha que deveria ser impossível, ainda mais nessa idade.
O belo trunfo desse filme, também roteirizado por Polinger é a total ambiguidade que o circunscreve, o acúmulo de dúvidas nunca esclarecidas. Mesmo se enquadrarmos a estória como uma coming of age, aqui não há redenção e amadurecimento aparentes, há uma escalada para o absurdo, não um absurdo fantasioso, mas o absurdo atingido quando não há noção das consequências. Ou, caso se saiba delas, não se dá a mínima, principalmente quando é a vida do outro que pode ser vagarosamente destruída.
Ben é um garoto por princípio frágil e sensível (sua mãe largou o pai e agora ele tem um padrasto), recém mudado de cidade. Ele precisa ser aceito pelo grupo, a ponto de introjetar algumas maldades, mas sempre lançando um olhar compreensível e curioso sobre Eli. Este é a maior vítima da crueldade do grupo dos jovens e, nas interações com Ben, percebemos que ele é um garoto bastante esquisito, com ideias sombrias e um senso de humor peculiar. Tem o corpo coberto por feridas que se parecem muito com possíveis alergias, entretanto, para o grupo ele foi contaminado pela praga, e pega o preço da rejeição, desenhada mais pela diversão de maltratar o outro, do que o temor de uma possível contaminação. O filme jamais esclarece se a peste é real ou não.

E temos Jake (Kayo Martin), sem dúvida o líder de todos os garotos. Numa interpretação de tirar o chapéu, mescla uma figura angelical, cabelos loiros encaracolados e sorriso fácil com atitudes absolutamente perversas e calculistas. O garoto é a encarnação do mal, numa composição perfeita, sem exageros, com uma sutileza de arrepiar. A cena na qual Wags dá um sermão na turma depois de mais um bullying em Eli, fica estampado que aqueles adolescentes sabem o que fazem, e que nada do que seja dito vai mudar suas atitudes, ao contrário, vai piorá-las. A forma como Jake confronta Wags indica que dali pra frente, só fundo do poço. Outro ponto alto de seu personagem é o fato de ser um ótimo contador de estórias. De terror, com certeza. É hipnotizante quando ele conta pra Ben a origem da praga, que supostamente foi transmitida pra Eli através de outro garoto, agora internado num hospital psiquiátrico. Ou a estória de sua família. O que ele conta é verdade? E se não for, faz diferença?
Aliás, palmas para o elenco adolescente que dá um show, sob o comando da diretora Rebecca Dealy, que dirigiu o elenco de obras como Precisamos falar Sobre Kevin (2011) e Hereditário (2018).

Daddy Wags é um cara simpático. Quando enxerga as situações de violência interfere, contudo, são nas lacunas deixadas pela sua ausência que observamos que provavelmente o terinador não tenha repertório para evitar o desastre. Ao apoiar Ben num momento de fuga do acampamento, seu discurso cheio de boas intenções, é um amontoado de clichês que não ajudam em nada.
A fotografia de Steven Breckon, quase sempre escura, capricha no uso da cor azul numa paleta que nos remete ao desconforto. Aquele espaço nunca é acolhedor. A sauna, que citei mais cedo, poderia ser relaxante, mas seus azulejos verde-musgo são sufocantes e é, justamente nesse espaço, um tanto desolador que Ben tenta se aproximar de Eli, sem sucesso. Ela, a fotografia, nos leva para os anos 80, apesar de a estória se passar em 2003. Nas cenas externas há um profundo incômodo, mesmo quando o sol brilha. No restaurante, a cor vermelha revela que aquele ambiente é perfeito para as atitudes agressivas que descambam no isolamento e vergonha. Assim como o enquadramento usado nas cenas do vestuário revela um local de opressão para alguns escolhidos. Perturbadoras (e belas) também são as cenas nas quais Jake passeia pelos corredores, arrisco dizer que a fonte aqui foi O Iluminado de Slanley Kubrick.
Ben tenta ser solidário com Eli, deixa no ar a ideia que a praga é algo inventado e que ele não deveria acreditar. Eli dá de ombros, o que pra mim, foi uma das cenas mais tristes do filme. Assim como as que ele dança solitariamente ― mesmo na presença de todos, agarrado a Betty Bopp. Mas, em breve, Ben reproduzirá as mesmas mazelas do grupo diante daquele que lhe é diferente, apesar de, ele mesmo, devido a uma dificuldade na fala, ser motivo de bullying.
A piscina acaba sendo uma personagem peculiar no roteiro. Coberta, rodeada de grandes janelas, muito azul, enorme, a água extrapola sua capacidade, expandindo-se pelos espaços ao redor, assim como o horror de cada gesto e fala dos adolescentes. Nela, cenas belas e violentas acontecem. Também é ali que o que está na superfície não é nem a ponta do iceberg.
O designer de Som (Johan Lenox) nos leva pra uma espiral de angustia e perturbação, onde estamos sempre esperando pelo pior, por mais que ele não venha, ao menos como imaginamos.
O cinema de horror/terror é considerado como uma das melhores maneiras de se usar a criatividade em termos estéticos e de criar contundentes metáforas sobre os horrores do real, das questões sociais, de gênero, do racismo, da LGBTfobia, da transfobia, do capitalismo e até da guerra, esta, um horror por si mesma. The Plague usa os recursos muito caros ao subgênero terror, com leves pitadas de body horror, mas privilegia acima de tudo a densidade que pesa (a estrutura dos personagens), as ambiguidades que perturbam (não há respostas entregues numa bandeja), a paranóia crescente (vide a COVID-19, a epidemia de HIV).
Portanto, pra mim, o melhor do filme é a discussão que ele pode proporcionar. A aparente coming of age (ponta do iceberg) revela como os garotos da geração Z (para os nascidos entre 1995-2009 considerando a época da estória, 2003) ou Alpha (2010-2024) vão construindo sua masculinidade, seu machismo, sua misoginia, violência e toxidade. Não é o caso de simplesmente apontar culpados e delinear caminhos fáceis, pois quase nunca o são. O horror real já bateu nas nossas portas e precisa ser abordado.

Muito reveladora a cena no início do filme na qual Matt (Caden Burris) ouve no seu aparelho de som no espaço diegético a música Salt Shaker de Ying Yang Twins, cuja letra que ecoa na mise-en-scène é: “ Vadia, você tem que balançar até sua lombar ficar doendo/suculenta como fruta ou rica como um coup Deville/costumava ficar solta na bebida, de verdade/cinco dólares você ganha uma dança/se tiver dez, trás uma amiga/vadia, balança seu corpo na música então/se não tá a fim, vaza/não somos meninos, somos homens”.
São garotos de 12, 13 anos que já chamam mulheres de vadias, que se masturbam no coletivo pedindo pra Ben descrever uma garota, que já olham de forma assediadora para as garotas que vão treinar ginástica rítmica na mesma piscina usada por eles. Polinger poderia aprofundar uma possível interação desses adolescentes tóxicos com as meninas que aparecem brevemente no filme, mas acredito ser mais interessante não escolher essa narrativa: é na convivência entre eles mesmos, suas brincadeiras sem graça e sempre violentas, piadas com pênis, no exercício do bullying continuado, nos comentários mais cruéis, no cinismo diante da indignação de uma figura de mais autoridade, que pressentimos que toda uma geração de homens que se orgulham de sua masculinidade, seja lá o que isso for, vem sendo construída de forma a descambar nas comunidades de red pills, legendários, na violência física e psicológica contra mulheres cis ou trans, no feminicídio.

Ao final do filme, numa das cenas mais desconcertantes vista por mim ultimamente, Ben se transforma num rascunho perdido e apavorado de Eli durante um baile promovido pelo acampamento. Ele projeta no colega através de um diálogo pungente e revoltante, todas as frustrações que ele não consegue enxergar em si mesmo. Muitas vezes apontamos no outro aquilo que nos assombra e nos faz ameaçadores.

Curiosidades: Charlie Polinguer dirigiu e roteirizou em 2018 o curta-metragem Sauna, cuja sinopse dá pistas que seu filme de estreia, The Plague é um desenvolvimento da ideia do curta (https://www.imdb.com/pt/title/tt7518372/)
O filme é uma parceria de vários países na produção: EUA, Austrália, Emirados Árabes e Romênia. As locações aconteceram em Bucareste(https://www.imdb.com/pt/title/tt32792934/)
Joel Edgerton também é produtor da obra (https://www.imdb.com/pt/title/tt32792934/fullcredits/?ref_=tt_cst_sm)
