Crítica: Tigre de Papel (Paper Tiger)
Filme de abertura da 50 Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

James Gray sempre foi um cineasta obcecado pelas fraturas do sonho americano, pelas dinâmicas familiares sufocantes e pela tragédia inerente aos homens impelidos pela ambição ou pela culpa. Em seu mais recente trabalho, Tigre de Papel, o diretor retorna a essas obsessões clássicas para entregar um drama criminal tenso, visceral e esteticamente deslumbrante, ambientado no Queens de 1986. Com estreia marcada para abrir a festiva edição de 50 anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo — onde Gray receberá o Prêmio Leon Cakoff —, o longa consolida o realizador como um dos maiores artesãos do cinema contemporâneo.
A trama apoia-se no clássico conflito de opostos através de dois irmãos judeus. Irwin Pearl (Miles Teller) é a própria definição do trabalhador honesto: um engenheiro dedicado a sustentar a esposa, Hester (Scarlett Johansson), e seus filhos pequenos, interpretados com grande naturalidade por Gavin Goudey e Roman Engel. A calmaria suburbana dos Pearl, no entanto, desmorona com a reaparecida de Gary (Adam Driver), o irmão mais velho, um ex-policial marcado por um histórico de apostas e ligações perigosas.

Gary traz consigo a ilusão de enriquecimento rápido, oferecendo a Irwin uma suposta consultoria ambiental de 10 mil dólares por noite para limpar um canal poluído. Naturalmente, a oportunidade dourada é apenas um disfarce para um esquema da máfia russa liderada pelo implacável Simeon Bogoyavich.
O que se segue é uma descida vertiginosa à paranoia. À medida que a máfia invade a rotina doméstica da família, Gray transforma o drama familiar em um thriller claustrofóbico. A tensão é potencializada por escolhas formais rigorosas: o cineasta rodou o filme inteiramente em película de 35mm, utilizando os estoques Kodak 500T e 50D. Longe de ser um capricho nostálgico, essa decisão confere ao filme a chamada "magia da prata". O estoque 50D banha a vida doméstica com uma nitidez suave, enquanto o 500T assume o controle nas cenas noturnas e no cenário tóxico do canal, fazendo o grão da película estourar e criando sombras densas que sufocam os personagens.

É uma reconstituição histórica sem artifícios digitais, que ecoa a cruza dos grandes thrillers urbanos dos anos 1980.
As atuações do elenco principal elevam a premissa à excelência. Scarlett Johansson entrega uma força silenciosa e angustiante como Hester, enquanto Miles Teller e Adam Driver compõem um painel doloroso de irmandade corrompida pela ambição e pelo desespero.
Contudo, a obra não está isenta de controvérsias narrativas. O clímax se dissolve em um desfecho abrupto, optando por parar onde muitos esperariam uma resolução definitiva. Essa ausência de um fechamento tradicional pode deixar o público dividido, flertando com uma certa sensação de frustração. Ainda assim, trata-se de um detalhe estrutural que sublinha a incerteza da própria vida e do desmoronamento moral que o filme retrata.


Tigre de Papel é um testamento à relevância do cinema analógico e à capacidade contundente de James Gray de dissecar as dores humanas. Uma obra de peso que promete marcar a abertura histórica da Mostra de São Paulo e ecoar com força no circuito cinematográfico.
O longa é produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features, vai ser distribuído nos cinemas pela Diamond Films e chega ao circuito comercial em janeiro de 2027
confira o trailer
programação na Mostra SP
O filme "Tigre de Papel" será exibido junto com o curta "Sul de Teerã". de Kleber Mendonça Filho
horários de exibição
14/10
19:00
SALA SÃO PAULO
15/10
19:00
SOLAR SALA PETROBRAS
16/10
18:45
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
27/10
21:00
CULTURA ARTÍSTICA
ficha técnica
DIREÇÃO
James Gray
ROTEIRO
James Gray
FOTOGRAFIA
Joaquín Baca-Asay
MONTAGEM
Scott Morris
SOM
Robert Hein, Dane Lonsdale
MÚSICA
Christopher Spelman
DIREÇÃO DE ELENCO
Douglas Aibel
DESIGN DE PRODUÇÃO
Happy Massee
ELENCO
Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel, Cindy Katz, Yavor Vesselinov, Victor Ptak
PRODUÇÃO
Rodrigo Teixeira, James Gray, Anthony Katagas, Raffaella Leone, Andrea Leone, Marco Perego, Gary Farkas, Leonardo Maria Del Vecchio, Carlo Salem, Andrea Bucko
PRODUZIDO POR
RT Features, Keep Your Head, Leone Film Group, Lotus, Vixens, Jury Rigged Pictures, Vice Pictures
DISTRIBUIÇÃO
Diamond Films
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