Crítica | Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria I "Quando a Ajuda Vira Julgamento"
- Pablo Escobar

- 29 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O filme estreia em 1° de janeiro de 2026, com distribuição da Synapse Distribution
Durante pouco mais de uma hora e meia de duração, Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria raramente permite que o espectador se afaste do estado emocional de sua protagonista, uma mulher encurralada por pressões cotidianas que, isoladamente banais, tornam-se sufocantes quando acumuladas. A diretora constrói o filme como um mergulho contínuo nessa experiência de desgaste, apostando menos em reviravoltas narrativas e mais na repetição exaustiva de pequenos conflitos, olhares atravessados e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo expositivo. A câmera, inquieta e quase sempre próxima demais, transforma o rosto da personagem em território de disputa: cada micro expressão carrega frustração, cansaço e um ressentimento que nunca encontra válvula de escape.
Assim como no filme de Mary Bronstein, o mundo ao redor da protagonista parece organizado para falhar com ela. Instituições, relações afetivas e figuras de autoridade surgem não como forças explicitamente hostis, mas como presenças burocráticas, incapazes — ou desinteressadas, de oferecer qualquer acolhimento real. Quando alguém se propõe a ajudar, o gesto vem quase sempre acompanhado de julgamento, condescendência ou interesse próprio, reforçando a sensação de que qualquer tentativa de amparo é, no fundo, uma encenação. O longa observa com precisão cruel como esse tipo de “ajuda” funciona mais como anestesia momentânea do que como solução, empurrando a protagonista para um ciclo de dependência emocional e culpa.
A força do filme reside, sobretudo, na maneira como sua encenação traduz esse aprisionamento psicológico. A direção evita alívios dramáticos fáceis e rejeita a tentação de tornar sua personagem imediatamente simpática. Pelo contrário: ela é frequentemente impulsiva, irritante, contraditória — e é justamente aí que o filme encontra sua honestidade. A protagonista não é construída para servir de exemplo ou metáfora redentora, mas como corpo em atrito constante com um mundo que exige desempenho emocional ininterrupto. Trata-se de um retrato desconfortável, que recusa a catarse e aposta na fricção prolongada como experiência estética.

Do ponto de vista da produção, Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria é um cinema de orçamento contido, mas de escolhas formais rigorosas. A fotografia privilegia espaços fechados, iluminação crua e enquadramentos que frequentemente comprimem a personagem dentro do quadro, enquanto o desenho de som amplifica ruídos cotidianos — passos, vozes distantes, aparelhos domésticos, como se todos conspirassem para intensificar o colapso interno da protagonista. São decisões técnicas que fazem sentindo dentro da abordagem, e com o discurso do filme, reforçando a sensação de claustrofobia emocional e social.
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Esse tipo de abordagem tende a encontrar maior ressonância no circuito de festivais e premiações voltadas ao cinema autoral do que em premiações tradicionais de grande visibilidade. Ainda assim, há espaço para reconhecimento em categorias como direção, roteiro e atuação, especialmente em mostras que valorizam narrativas femininas complexas e olhares autorais consistentes. O filme possui o tipo de densidade temática e rigor formal que costuma conquistar a crítica especializada, mesmo que divida o público pela sua recusa em oferecer conforto.

Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria aponta uma cineasta cada vez mais interessada em explorar zonas de desconforto emocional, relações de poder sutis e personagens femininas que escapam de arquétipos conciliadores. Se este filme confirma uma maturação de linguagem e um domínio maior dos próprios temas, seus próximos projetos tendem a consolidá-la como um nome relevante no cinema independente contemporâneo — alguém disposta a trocar o apelo imediato pela construção paciente de obras que incomodam, provocam e permanecem. Assim como o filme sugere, nem todo desconforto precisa ser resolvido; alguns existem justamente para nos impedir de desviar o olhar.






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