Crítica| Camila Saíra Essa Noite (Camila Saldrá Esta Noche) – 2021 (Argentina)
Coming of age delicado cujo pano de fundo é o movimento Lenços Verdes e a importância da consciência política.
“Você gosta de política. É ativista?”
“Sinto que fui parar no pior lugar”
Disponível no Prime Vídeo

Camila mora com a irmã e sua mãe em La Plata, capital da província de Buenos Aires. Com a doença de sua avó, elas são obrigadas a se mudar para a capital. Com essa premissa “simples” assistimos a trajetória de Camila de perto e os impactos de deixar uma escola mais progressista e seus amigos para, na capital, ingressar num colégio religioso.
A delicada saga de Camila (Nina Dziembrowski; Emília, 2020) começa com um grupo de adolescentes, que graças ao ótimo designer de som, nos transmite a ideia de que o grupo foge de um protesto: entre sineres da polícia, som de tambores ao longe, e dos diálogos bem humorados dos colegas sobre imperialismo e a série Euphoria, entendemos que Camila tem uma vida satisfatória entre os seus.
Ao fugirem do protesto, a turma ingressa no museu de ciências, e conhecemos assim a história de Damiana, garota Aché de 4 anos que, após ser capturada na selva paraguaia pelos colonos brancos que perpetraram um massacre contra seu povo, serviu de objeto científico, morrendo prematuramente aos 14 anos. Camila se detém por um tempo na saga da garota, o que nos leva a entender que a maturidade de nossa heroína não acontece sem contexto político.

Ao se mudarem para Buenos Aires, Camila mostra-se frustrada, afinal deixa os amigos pra trás e ainda é obrigada a frequentar um colégio religioso, conflitando muitas vezes com sua mãe, Victoria (Adriana Ferrer; Invisível, 2017). Na nova escola, invertendo expectativas, principalmente após uma reunião inicial com o diretor do tipo, “não concordo mas, só acato ordens”, ela encontra outra tribo pra chamar de sua, voltando a se sentir mais confortável diante do mundo. Corrijo: confortável ao se sentir pertencente a um novo grupo, mas desconfortável diante de uma sociedade reacionária.
Um dos maiores trunfos do filme é a ausência de diálogos expositivos didáticos. Através de uma montagem dinâmica (Sebastián Schjaer; Um Futuro Brilhante, 2024), mas que respeita os espaços vazios do filme, se constrói um quebra-cabeça em ritmo próprio, onde as informações necessárias para o entendimento da relação familiar e o que se passa na cabeça de Camila cheguem sem atropelos.

O roteiro escrito a quatro mãos pela própria diretora Inés María Barrionuevo (La Prima Sueca, 2017; Los Motivos, 2020) e Andrés Aloi escolhe contextualizar um fragmento da adolescência de Camila durante o movimento lenços verdes, algumas suspeitas sobre o passado fascista da avó e da neutralidade política da nova escola (nada mais político do que a tal neutralidade não?). Tudo isso sem fazer desse solo na qual pousa a obra num panfletismo didático e cansativo, ao contrário, nos instiga a pesquisar mais sobre o assunto.
Através de um delicado trabalho de direção de arte (Maria Eugênia Sueiro) e de fotografia (Constanza Sandoval) o espectador identifica cada pedacinho do quebra-cabeça da situação política na época em que a estória se passa, provavelmente antes de dezembro de 2020 quando o aborto foi legalizado até a 14ª semana de gestação.

Nas cenas, mesmo que breves, de Camila em La Plata com os amigos, a fotografia assume tons mais claros e as cores das roupas e bolsas mais chamativas, mesmo que o cinza figure entre os jovens. Quando a família de Camila vai morar na casa da avó na capital argentina, que está internada há um tempo, a residência é opressiva, escura, móveis antigos e muitos deles cobertos por plástico, que por sinal, não são retirados pela família ao longo da estadia. As ruas de Buenos Aires são cobertas por um céu abafado. No colégio, Camila é obrigada a usar uniforme (saia e camisa de manga comprida) em cores dessaturadas, desprovido de qualquer vitalidade. Alguns tons de verde também surgem na obra, figurando entre os lenços verdes sutilmente presos nas bolsas como símbolo na luta das mulheres que foram pra rua a alguns anos.
Ao se mudarem para a nova casa, Victoria, mãe de Camila, aparece inicialmente de forma que a câmera não mostra seu rosto, deixando-o fora de quadro. Ouvimos sua voz e seu movimento corporal na cena, como uma presença sombria e oculta. Sua irmãzinha Martina (Carolina Rojas) é uma fofa iniciada nas trincheiras políticas como mostra um comentário engraçado que ela faz sobre o colonizador Colombo. Já Victoria, só o trabalho de uma grande atriz como Adriana Ferrer para dar a dimensão da personagem. Provavelmente uma mulher progressista e de passado militante, agora com a mãe doente e tendo que mudar toda sua vida, se mostra menos ousada e até certo ponto castradora das ações da filha mais velha, que é de onde surgem os conflitos entre as duas. Ao mesmo tempo a personagem é digna de uma doçura que indica profunda compreensão da vida, além de carregar uma tristeza no olhar.
A palavra doçura usada mais acima não remete a algum papel ou característica obrigatoriamente dados às mulheres, mas, de alguém que passou por muito na vida e encontra outras ferramentas para manter a sua dignidade e ética. Ainda mais se pensarmos que há a possibilidade de que a personagem possui uma mãe fascista, ao consideramos o passado de golpes e ditadura, assim como no nosso país.

Já a avó que só aparece de relance, o roteiro nos brinda com um delicioso enigma: fotos antigas da personagem, um gato e uma vizinha profundamente solitária são peças de interesse de Camila, que se debruçará em desvendá-lo.
Assim como uma das coisas que mais me agradaram no filme nacional Levante (https://www.lagoanerd.com.br/post/critica-levante-2023), aqui a diretora nos presenteia com uma diversidade de personagens que forma o novo ciclo de amizades de Camila, como Bruno (Diego Sánchez), Lourdes (Laura Daniela Viscanti), Pablo (Federico Sack; A Família Submersa, 2018) e Clara (Maite Valero). De forma bastante fuída sem justificativas que soariam forçadas, passeamos pela fuidez (desculpem o trocadilho) sexual e de gênero dos nossos personagens, como a bissexualidade de Camila.
A obra também consegue fazer comentários bastante pertinentes e sutis de coisas do tipo, aquilo que rechaçamos com muita radicalidade no discurso ou na atitude do outro, pode ser puro recalque dos nossos desejos reprimidos tanto pela família quanto pela sociedade, vide uma cena entre Camila e Clara. Como também o encontro entre Camila e Bruno, garoto legal e muito sensível, que num diálogo é colocada toda a fragilidade e insegurança masculina, mas não de forma violenta e ressentida, mas de forma que possamos acolher esse personagem, configurando novas masculinidades.
O filme encontra uma forma sensível e simples de nos contar sobre o amadurecimento de uma garota com consciência política e que toma partido das questões discutidas pelo país, sem panfletagem e caricaturas. Porém, a execução de algumas cenas que fazem o contraponto do discurso progressista da obra, como o convite violento de Franco (David Lucarino) ex-namorado de Clara para que Camila saia com ele e depois, o assédio dele contra nossa protagonista, na qual todos vão parar na diretoria, achei mal construído e apressado. Como se o filme, ao se despontar para seu final, precisasse colocar um vilão que representasse o oposto das ideias defendidas na obra, em ação.
A cena que precede o final, na qual a formatura da turma se transforma num protesto um tanto radical, pode soar ingênuo, mas, deixa um gosto de esperança de que os mais jovens possam nos tirar do fundo desse poço que fazemos questão de cavar mais e mais.
Camila saiu esta noite ao se permitir desejar, se abrir para uma nova vida, ao fazer as pazes com a mãe, personagem comovente e complexa, e ao entender que a avó poderia ter sido muitas coisas, assim como todos nós.
Curiosidades: Sobre o movimento lenços verdes na Argentina (https://catarinas.info/lencos-para-as-lutas-das-mulheres-na-argentina/).
Sobre a garota Aché Damiana (http://buenaondaproducoes.com.br/cineargentino/portfolio-item/damiana-kryygi/).
O montador e também diretor Sebastián Schajaer apesar de pouca idade tem um longo currículo (https://www.sebastianschjaer.com/editor).





Comentários