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Crítica | Emmanuelle – 2024

“Está querendo ser demitida?

         Sim.

Vai deixar tudo isso, por impulso?

               Isso te surpreende?”



Disponível: 1° Festival de Cinema Europeu Imovision 2025 dos dias 24-30 de abril


Emmanuelle
Cartaz

Talvez seja importante avisar que nunca assisti o clássico softcore Emmanuelle, 1974 (Just Jaeckin) baseado no livro homônimo da romancista Marayat Rollet-Andriane. Na realidade Emmanuelle é uma série de livros lançados ao longo dos anos. Descobri algo curioso sobre o lançamento do filme no Brasil: ele foi proibido pela censura da ditadura militar, liberado apenas em 1980, entretanto, se algum agente do estado quisesse vê-lo em casa, tinha acesso. Pois é, um caso típico das hipocrisias existentes em regimes autoritários assim como em pessoas reacionárias.


A diretora Audrey Diwan assistiu apenas alguns minutos do clássico de 1974, quis se afastar do que significava um filme erótico nos anos 70, a mulher em busca de experiências sexuais mas, objetificada e passiva. Há realmente uma subversão nesta versão e nossa personagem Emmanuelle (Noèmie Merlant de Retrato de uma Jovem em Chamas, 2019) é dona da própria vida e escolhas.


Gostei bastante do filme anterior da diretora, O Acontecimento (2022) baseado no livro de mesmo nome de Annie Ernaux, inclusive, meu primeiro contato com a obra dessa escritora francesa e cuja leitura me impressionou. O filme de 2022 tem uma narrativa um tanto dura, sem concessões ao drama barato e muito pragmático em relação ao objetivo da protagonista Anne, baseada na experiência da própria escritora.


Arrisco dizer que nesta versão, nem tão versão assim, a diretora percorre um caminho mais subjetivo, apostando nas sensações, nos corpos, na sedução, um filme mais filosófico e antenado na contemporaneidade.


Emmanuelle
Erotismo e etéreo

Acabei o filme dividida: não gostei da obra. Mas não desgostei. Talvez essa escrita me faça descobrir algo mais, afinal, uma estória que aposta nas sensações tira a objetividade de cena e acaba fazendo com que nós, aqui do outro lado da tela, nos perguntemos o que fazer com tudo aquilo sentimos em menos de duas horas.


Gosto muito da ideia de praticamente zerar a personagem, apesar de não ter visto o primeiro, fica claro que esta Emmanuelle é única e ao mesmo tempo todas aquelas mulheres que não aceitam submissão, a não ser dentro da própria fantasia.


A narrativa discorre sobre uma alta executiva, Emmanuelle, viajando a trabalho para Hong Kong, cidade de tantas nacionalidades, para avaliar os serviços prestados por um grande hotel internacional gerenciado por Margot (Naomi Watts) e acompanhamos suas aventuras/descobertas sexuais.


Não conhecemos o passado da protagonista, como chegou ali, seus hobbys, família, amigos, ela simplesmente aparece em nossa frente, num voo, pedindo a aeromoça não uma taça de champagne, o que poderia e talvez até seja, sensual, mas sim, uma hidratante labial, pois seus lábios estão secos. Saímos um pouco do óbvio. A partir daí ela seduz, se deixa seduzir, quer ser observada, se permite alguma obsessão.


O roteiro (Rebecca Zlotowski) traz elementos de um mundo movido a muita grana, a onipresença e onipotência das conglomerações empresariais, comentário ambiental, desfaçatez ao indicar que uma pessoa precisa ser cortada do emprego, mesmo que para isso se plante uma falha. Mas nenhum desses comentários muito bem-vindos para uma versão atualizada é realmente aprofundada. Os temas vão tecendo uma rede de informações jogadas ao espectador, sem criar uma real curiosidade.


Emmanuelle
Emmanuelle e Kei

Tecnicamente o filme é lindamente filmado, muito elegante em suas imagens. A fotografia (Laurent Tangy) se compõe de cores quentes dentro do hotel, com imagens que nos remete ao etéreo, aos sonhos e fantasias. Acreditamos (ou fantasiamos?) que tudo pode acontecer dentro daquele espaço, sensação reafirmada com a deliciosa trilha sonora. Já no terço final quando finalmente Emmanuelle sai do hotel e explora a cidade as cores são mais frias, mas no sentido de captar toda uma variedade de becos, esquinas e pessoas a circular pela cidade numa noite aparentemente quente e sem qualquer glamour em comparação aos espaços do hotel.


A montagem (Paulinne Gaillard) acerta na passagem das cenas (cortes), nos arrancando de cenas que sugerem algo a acontecer e nos jogando num lugar completamente diferente, aguçando nossa fantasia e porque não, curiosidade. Além disso, a montagem também introduz cenas nas quais testemunhamos objetos que nos mostram a ostentação daquele lugar, suas bebidas, prataria, comidas, taças.


Emmanuelle
Emmanuelle e Zelda

Em algum momento o misterioso (mas nem tanto assim) Kei, personagem de Will Sharpe (White Lotus, segunda temporada) faz um comentário sobre a tristeza no rosto de Emmanuelle que responde de maneira bastante superficial. Nesta cena perdeu-se a oportunidade de não dar margem para simplificações do tipo “uma mulher desejosa sexualmente e portanto triste e perdida”. Aproveito para fazer uma observação muito pessoal: Will Sharpe não é um ator que me agrade, seja na série do Max e muito menos aqui. Infelizmente seu personagem me pareceu a representação de um clichê de homem misterioso que atrai a obsessão de Emmanuelle.


Emmanuelle então percorre os infindáveis corredores do hotel Rosenfield de forma lânguida, entre mènage à trois, jogos de sedução com uma acompanhante, cujos serviços não proibidos no interior de hotel mas tolerados e, a curiosidade sobre Kei, esse único que não se deixou seduzir por ela. E nisso temos um clichê que poderia ter tomado outros rumos.


Como escrevi antes, este é um filme de sensações e através de imagens percebemos que Emmanuelle apesar de sedutora, e porque não, caçadora, ainda não sentiu o prazer máximo de uma relação sexual. A própria diretora disse que ela inicia o filme com sua sexualidade quebrada.


Acho muito feliz a ideia de não se fazer nenhum comentário moralista sobre as escolhas e modos de agir da personagem, sempre em busca de flertes, sexo, joguinhos excitantes, o que torna o filme essencialmente político em seu discurso.


Emmanuelle
Emmanuelle

Porém, há hesitação em se sensualizar mais, ousar mais, criar uma verdadeira subversão. Quando digo isso não me refiro a cenas de sexo por si só. Essas são importantes e, não concordo com uma tendência que surge de se ter um cinema sem sexo, moralizando cada vez mais a sétima arte. Nem gosto também do discurso “sexo gratuito” (o que diabos é isso?). Refiro-me ao erotismo que não é sentido nas posturas, diálogos, uma frieza que ronda as personagens.


Como exemplo dessas cenas temos o encontro da protagonista com um casal hétero no bar do hotel e sua sequência, que ao meu ver, só funcionou para nos mostrar a angústia da personagem Ou ainda os jogos de sedução entre Emmanuelle e a garota de programa Zelda (Chacha Huang) que são pouco exploradas. O diálogo entre Emmanuelle e Kei transborda muito mais honestidade e um certo cinismo do que erotismo, sedução.


Emmanuelle inicia o filme com uma postura rígida, autoritária e só no final, senti sensualidade de verdade na sua presença, e numa cena que nada remeta ao sexo ou à sedução. Explico: as frases que inseri logo embaixo no título do filme no início deste texto, remete a um dos diálogos entre ela e Kei. Pra mim, nada mais sensual e erótico do que uma mulher que pode jogar tudo pro alto, mudar de vida, sentir tesão pela vida, para além daquele homem bem à sua frente.


Vejo também erotismo e sensualidade em momento de sororidade entre duas mulheres como o que acontece brevemente entre Emmanuelle e Margot, cuja cabeça está a prêmio pelo dono da p***a toda. Há uma tensão entre elas, há algo erótico ali, apenas nas entrelinhas.


Curiosamente pra mim a cena mais erótica da obra é a descrição que Margot faz sobre o serviço de acompanhamento tolerado no hotel, no momento em que Emmanuelle a confronta por ter mandado Zelda embora.


Emmanuelle
Margot

Mas então me lembro da beleza de outras cenas como a da banheira, da masturbação, da dança no restaurante do hotel, a performance no quarto do Kei, do caminhar de Emmanuelle pelas ruas de Hong Kong. Ao final percebo que não temos aqui personagens masculinos interessantes ou sensuais, o filme é delas. Sigo me sentindo ambígua em relação ao filme, ou seja, escrever só aumentou minhas contradições, e eu gosto disso.







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