Crítica| Hallow Road (Estrada Sagrada: caminho sem volta) – 2025 (Irlanda)
O terror e o trágico descortinando e dissolvendo o ressentido nas relações
“Sabe sim. Você ligou pra gente porque sempre liga. Porque nós facilitamos”
Disponível no Prime Vídeo

Fiz uma pequena inversão no título do texto em relação ao padrão sempre mostrado. Coloquei o título original antes do título traduzido. A forma padrão (título em português primeiro é para facilitar a procura, caso a obra esteja no streaming). A mudança de formato foi proposital porque peço desesperadamente que não deem a mínima importância para esse título traduzido na íntegra (nem sempre é o melhor caminho) e esse subtítulo no mínimo horroroso. Dito isso sigamos.
O diretor Babaki Anvari estava até algum tempo com um filmo disponível no Prime Vídeo, que agora já migrou pra outra plataforma que não tenho acesso. Um terror iraniano chamado (o diretor é britânico-iraniano) Under The Shadow-2026, que acumula boas críticas na internet. Perdi a oportunidade de assisti-lo e tirar minhas próprias conclusões.
Hallow Road é um daqueles filmes que quanto menos se falar melhor. Não se trata da polêmica que nunca sai de moda sobre o spoiler. Este acontece quando algo muito significativo é revelado, algo pontual que muda o caminho da narrativa. No caso de Hallow é estória como um todo cujo clima revelado revelada, pode tirar a experiência do espectador.

Com um elenco que tem nada mais, nada menos do que os excelentes Rosamund Pike (Garota Exemplar, 2014; Orgulho e Preconceito, 2005) e Matthew Rhys (The Americans, 1013-18; Passei Por Aqui, 2022; Widow’s bay, 2026 -.), a narrativa nos conta sobre um casal que durante a madrugada recebe o telefonema de sua filha, Alice (Megan Macdonell, Normal People, 2020), relatando um acidente automobilístico grave na estrada cujo nome é o do título do filme.
Apesar da curta duração da obra, não há pressa aqui pra mostrar o que acontecerá. A estória de Hollow Road se passa praticamente dentro do carro de Maddie, com enquadramentos e movimentação de câmera que nos apresentam os personagens e os acontecimentos precedentes à tragédia. Sem diálogos e uma trilha sonora envolvente que nos diz o tempo todo que nada está no lugar, passeamos pela casa dos Finch’s. Um jantar inacabado com pratos ainda cheios, outro vazio e limpo, taça de vinho pela metade, um copo quebrado no chão da sala de jantar, um plano detalhe do relógio de parede (o tempo é de suma importância para a narrativa), os crachás indicando as profissões da Sra. Maddie e Sr. Frank.
Após o telefonema de Alice, que siau com o carro do pai após o jantar, pedindo ajuda ao casal, o caos se instala. Cenas da floresta que corta a estrada Hallow, em sua plenitude durante a noite seria um sonho de Maddie ou prenúncio do que está por vir?
O roteiro de William Gilliens está mais preocupado em destrinchar o que está oculto na relação entre Frank e Maddie durante o percurso entre a sua casa e o ponto da estrada onde vão encontrar a filha. Percebemos através do embate entre os dois diante de uma situação que pode ser trágica sem garantias de que Alice fale toda a verdade, as diferenças de ponto de vista. Principalmente sobre a forma de criação de Alice, jovem que frequenta a faculdade e mora com o namorado.
Frank se mostra um pai altamente protetor e que mostra desde o começo, desespera com toda a situação, até mesmo antes do telefonema. Já Maddie, que é paramédica, mostra-se como uma mãe totalmente pragmática, daquelas que acredita que a melhor forma de se criar um filho é fazer com que este se vire na vida e assuma a responsabilidade dos seus atos. O certo é o certo, a ética é basilar. Já para Frank, qualquer coisa pode justificar que a filha seja protegida das decisões runs que toma. E claro, outras rusgas profundas entre o casal, vão emergir entre eles. Ainda há espaço para que Alice responsabilize a mãe por estar na situação que está.

Esse tipo de embate é muito comum em centenas de filmes e séries, mas aqui, diante da urgência da situação, direção firme e roteiro enxuto, os embates valem cada centavo de atenção. E tudo isso amparado pelas brilhantes interpretações de Rosamund e Matthew. A atriz Megan Mcdonell não fica atrás, já que sua Alice é apenas uma voz no celular de Maddie. A foto do perfil de Alice criança no telefone de Maddie nos diz muito sobre as relações parentais.
Graças à montagem competente de Laura Jennings somos jogados em tempo real na estória, e não se trata de nenhum plano sequência. A fotografia (Kit Fraser) faz um contraponto importante entre a casa dos Finch’s, clara (até certo ponto), cores pastéis, porém quentes e a noite escura e misteriosa na floresta cortada pela estrada.
A obra evita nos sufocar com muita ação (e aqui, os diálogos são pura ação) e informações jogadas de qualquer jeito. Há silêncios importantes e momentos onde a comunicabilidade com Alice é cortada, desfrutamos então do desespero ora de Alice, ora dos seus pais. E de todos ao mesmo tempo, mas sem atropelos.
No momento em que o aplicativo de navegação redireciona a rota indicando que Frank pegou o caminho errado, reconfigura-se também a trajetória do filme, entrando ao meu ver, no terror, principalmente quando uma nova personagem através de sua voz se faz presente e muda todo o tabuleiro. Entra em cena o moralismo, a culpabilidade e o peso do julgamento. A escolha de primeiríssimos planos focados nos olhos do casal durante a conversa com essa nova voz é bastante competente e funciona bem.
Algumas críticas indicam furos no roteiro no final da obra. Divirjo, acredito que na realidade, quando os policiais entram em cena, os diálogos expositivos explicam demais, nos poupando da beleza de um final que caberiam ótimas discussões, além de um apelo à nossa criatividade, fazendo nos lembrar que obras abertas em determinados casos, como no terror, podem ser bem mais interessantes que obras fechadas. O pensamento abstrato está fazendo falta.

PS: prestem atenção aos créditos finais onde um nome surge na tela e mostra o quanto a versatilidade e o talento da atuação é algo fantástico. Esse é o verdadeiro spoiler.
Confira o trailer do filme





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