Critica | O Agente Secreto I Um Thriller Político de Alta Voltagem Emocional e Estética Refinada
- Pablo Escobar
- há 9 minutos
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Em O Agente Secreto, o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho consolida mais uma vez seu lugar entre os cineastas mais relevantes do cinema mundial contemporâneo. Conhecido por obras densas, politicamente engajadas e formalmente sofisticadas, como O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016) e Bacurau (2019), Kleber constrói aqui um thriller político que equilibra tensão narrativa, reflexão histórica e um domínio técnico impressionante.
O resultado é um filme que mistura bem alguns estilos, sendo os mais notáveis o cinema de espionagem clássico, em especial o Neo-Noir, quanto com o drama político latino-americano, criando uma obra profundamente brasileira, mas com ressonância universal.
Ambientado durante os anos finais da ditadura militar brasileira, O Agente Secreto acompanha um homem envolvido em operações clandestinas que transitam entre o jogo duplo, a paranoia e a luta pela sobrevivência. No entanto, mais do que contar uma história de espionagem tradicional, o filme se interessa pelas marcas psicológicas deixadas pela repressão, pela vigilância constante e pelo medo institucionalizado.
A narrativa avança em camadas, alternando momentos de tensão silenciosa com explosões súbitas de violência, criando uma atmosfera de permanente instabilidade. O roteiro evita explicações excessivas, confiando na inteligência do espectador para preencher lacunas e compreender subtextos. Assim, o filme constrói um retrato perturbador de um Brasil marcado pela opressão, mas também pela resistência silenciosa.

Kleber Mendonça Filho mantém seu estilo autoral inconfundível: planos longos, composição cuidadosa, atenção rigorosa ao espaço urbano e uso expressivo do som. A câmera se movimenta com discrição, muitas vezes observando à distância, como se também estivesse espionando os personagens.
O design de som, elemento central na filmografia do diretor, atua quase como um personagem invisível — ruídos distantes, silêncios desconfortáveis e sons ambientes constroem uma atmosfera opressiva, ampliando a sensação de vigilância constante.
Visualmente, o filme aposta em uma paleta sóbria, com iluminação naturalista, reforçando o realismo e a dureza do período retratado. Cada enquadramento parece pensado não apenas para narrar, mas para sugerir camadas simbólicas sobre poder, medo e memória
Assim como em Aquarius e Bacurau, Kleber trabalha a memória histórica não como um exercício nostálgico, mas como um alerta político urgente. O Agente Secreto questiona diretamente os perigos da naturalização da violência estatal e do apagamento histórico, propondo uma reflexão contundente sobre democracia, liberdade e responsabilidade social.
Tecnicamente, o filme é irrepreensível. A direção de fotografia constrói imagens densas, carregadas de tensão. A montagem aposta num ritmo preciso, sem recorrer a artifícios fáceis do thriller convencional. A trilha sonora é usada com parcimônia, permitindo que o silêncio cumpra sua função dramática.
O cuidado com a direção de arte e figurino contribui para uma ambientação histórica minuciosa, sem excessos estéticos. Tudo está a serviço da narrativa e da atmosfera.
Em contraste com o filme brasileiro que venceu o Oscar no ano anterior (Ainda Estou Aqui), lá o filme de Walter Salles é uma obra de apelo mais emocional, narrativa clássica e forte comunicação com o grande público — O Agente Secreto adota uma postura mais contemplativa e politicamente incisiva.
Enquanto o vencedor do Oscar buscava universalidade por meio do drama humano direto, Kleber aposta na complexidade formal, na ambiguidade narrativa e no engajamento político explícito. Ambos representam caminhos distintos, porém igualmente relevantes, para a internacionalização do cinema brasileiro.

O elenco entrega interpretações marcadas pela contenção e profundidade emocional. O protagonista constrói um personagem silencioso, tenso, cuja fragilidade interna se revela em pequenos gestos e olhares. Não à toa tivemos o destaque para o indicado ao Oscar Wagner Moura, em uma atuação sublime, e também o trabalho impecável da direção de elenco indicado ao inédito Oscar de Casting.
O Agente Secreto é um thriller político sofisticado, tenso e profundamente necessário. Mais do que entreter, o filme provoca, inquieta e convida à reflexão.
Kleber Mendonça Filho entrega uma de suas obras mais maduras, reafirmando sua posição como um dos grandes nomes do cinema contemporâneo.
Trata-se de um marco não apenas na filmografia do diretor, mas também na história recente do cinema brasileiro, projetando nossa produção artística no cenário global com força, identidade e relevância.
FICHA TÉCNICA
Produção: Cinemascópio
Coprodução: MK Productions, Lemming, One Two Films
Direção & Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Produção: Emilie Lesclaux
Diretora de Fotografia: Evgenia Alexandrova
Diretor de Arte: Thales Junqueira
Diretor de Elenco: Gabriel Domingues
Figurino: Rita Azevedo
Caracterização: Marisa Amenta
Montagem: Eduardo Serrano e Matheus Farias
Som Direto: Moabe Filho e Pedrinho Moreira
Edição de Som & Desenho Sonoro: Tjin Hazen
Mixagem: Cyril Holtz
Trilha Sonora: Mateus Alves e Tomaz Alves Souza
Diretores assistentes: Fellipe Fernandes, Leonardo Lacca
Produção executiva: Dora Amorim
Diretora de produção: Mariana Jacob
Distribuição Brasil: Vitrine Filmes
Distribuição internacional: MK2
Distribuição EUA: Neon
Distribuição Reino Unido e LATAM: MUBI
O AGENTE SECRETO (2025)
Brasil/França/Holanda/Alemanha
Cor / 2.40:1 Scope / 158 mins


