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CRÍTICA | O BEIJO DA MULHER-ARANHA -“Filme Colorido e Profundamente Cinza”

filme disponível nos cinemas a partir de 15 de janeiro distribuido pela Paris Filmes

critica por Fabrício Belvederes


O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA

O Beijo da Mulher-Aranha é uma das obras mais célebres da cultura argentina. O livro de Manuel Puig acabou dando origem a uma adaptação cinematográfica em 1985, que ganha agora, quarenta anos depois, um remake norte-americano — ainda preservando a essência da cultura latino-americana.


A história se passa nos anos 80, quando o país era autoritariamente controlado por uma ditadura militar e enfrentava seus períodos mais sombrios, marcados por prisões políticas e perseguições a indivíduos considerados subversivos.


O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA

Um desses indivíduos é Luis Molina, interpretado por Tonatiuh, um homossexual que foi flagrado em atos obscenos com um homem em um banheiro e, por isso, enviado para uma prisão em Buenos Aires. Molina é visto de forma negativa pelos outros presos por expressar fortemente sua feminilidade e por sua obsessão pelas divas do cinema musical.


Na prisão, Molina conhece Valentín Arregui (Diego Luna), um preso político opositor do regime e seu novo colega de cela. Arregui é calado e introspectivo, colocando-se em um extremo oposto ao de Molina.


A relação improvável entre os dois começa a se desenvolver quando Molina se empenha em contar a Arregui toda a história de O Beijo da Mulher-Aranha, seu musical favorito, estrelado pela grande musa do cinema Aurora (vivida por Jennifer Lopez).

O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA

O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA

A partir daí inicia-se um filme dentro do filme, em que ambas as narrativas se sobrepõem e se conectam por meio de contrastes — a grande sacada da obra: um filme que é, ao mesmo tempo, colorido e profundamente cinza.


Enquanto as cenas musicais do filme favorito de Molina são repletas de vida, cor e entusiasmo, seu período na prisão é sombrio, bucólico e aterrador, servindo como artifício para a direção de Bill Condon mostrar que a imaginação daqueles presos — e as histórias que conheceram no cinema — era a única forma de escapar do pesadelo vivido no cárcere.

Assim se constrói uma história bonita de conexão entre os dois personagens, que tentam se ajudar de diferentes maneiras, sobrevivendo dia após dia enquanto sonham e compartilham momentos de suas vidas, intercalados por passagens de O Beijo da Mulher-Aranha.

O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA

Tudo é feito com muita delicadeza e habilidade, com um roteiro que sabe desenvolver seus personagens para levá-los a uma conclusão que, na mesma medida em que encanta, também emociona.


Ainda assim, é importante destacar a estranha mania de Hollywood de adotar filmes de outras culturas e países para produzir remakes em sua própria língua, interpretados, produzidos e dirigidos por norte-americanos que não pertencem — e nunca pertenceram — a esse contexto cultural. Também causa estranhamento — para não dizer um pouco de preconceito na escolha — o fato de Diego Luna, um mexicano, e Tonatiuh, um estadunidense, interpretarem dois argentinos.


O BEIJO DA MULHER-ARANHA
O BEIJO DA MULHER-ARANHA

Porém, deixando de lado questões antropológicas e sociais e focando exclusivamente no filme e na proposta da história contada, é inegável que O Beijo da Mulher-Aranha é uma obra-prima de qualidade e requinte, que certamente merecereconhecimento por trazer um romance histórico fiel ao período retratado, original ao utilizar personagens queer para abordar a ditadura latino-americana e comovente ao revelar o interior de personagens que certamente se tornarão muito queridos pelo público.

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