Crítica | Parthenope - Os Amores de Nápoles (2024)
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Atualizado: há 2 horas
Uma Beleza exuberante, a busca pelo conhecimento, do aprender a ver, os mitos, o teatro dionisíaco, o sagrado profano, com a relação simbiótica entre a protagonista Parthenope e a Nápoles de Paolo Sorrentino estão intricados neste filme singular

O filme italiano está disponível no streaming de Filmelier+ desde o dia 7 de maio e traz a primeira protagonista mulher do diretor italiano mais conhecido por filmes como A grande Beleza, A graça, Aqui é meu lugar, A mão de Deus) o filme esteve presente no Festival de Cannes 2024
E que aqui trago também uma critica como objeto de estudo de caso entre mitos, beleza, antropologia, melancolia e a Nápoles de Paolo Sorrentino
Do grego Parthenope para a origem da fundação de Nápoles
Um pouco antes de adentrarmos nesse exuberante filme um adento sobre a origem do título e o nome da protagonista e os mitos que os envolve e a origem de Nápoles
O nome Parthenope (em grego: Παρθενόπη) deriva de duas raízes gregas:
Parthenos: Significa "virgem" ou "donzela".
Ops: Pode significar "voz", "visão" ou "rosto".
o significado literal é algo como "aquela que tem a voz de donzela" ou "rosto de virgem”.
Com a mitologia grega o nome Parthenope vem de uma sereia ( não do mar mas do céu com corpo de pássaro e rosto de mulher) que aparece na historia da Ilíada de Ulisses quando ele e sua tripulação atravessam o mar mas tem que passar por seres belos e mitológicos que tem histórico de naufragar as embarcacões com a voz hipnotizante mas no caso dele as sererias falham
Pathernope então se joga ao mar como forma de punir a si mesma e acaba se afogando.

O seu corpo então é levado pela correnteza para a costa italiana na região de Campânia e onde dizem que seu corpo teria sido encontrado, os gregos estabeleceram um assentamento e o batizaram de Parthenope e séculos mais tarde uma "nova cidade" foi construida ao lado, recebendo o nome de Neápolis (cidade nova) e que atualmente é conhecida como Nápoles.
E um fato curioso é que até hoje os cidadãos e tudo que pertence á cultura daquela região são conhecidos como "parthenopeu", incluindo um dos seus cidadões napolitanos mais ilustres Paolo Sorrentino é o diretor do longa
No filme, Sorrentino subverte o mito original. Enquanto a Parthenope lendária morre no mar para que a cidade nasça, a protagonista (interpretada com maestria pela novata Celeste Dalla Porta) de Sorrentino nasce literalmente no mar (em 1950) para emergir na cidade, tendo sua vida mostrada em diferentes fases, exaltando não somente a beleza, juventude mas " aprender a ver" através do conhecimento e estudo da antropologia que ela estuda
A beleza da Sereia de Sorrentino como forma de Simbolismo
No mito, o perigo era a voz**. No filme de Sorrentino, o perigo (e o fascínio) é a imagem física no caso a beleza estonteante e hipnotizante de Parthenope ( em grande atuação da novata Celeste Dalla Porta) e que fica mais reluzente e radiante ainda com a belíssima e ensolarada Nápoles, deixando as pessoas desarmadas com tal linda beleza estética natural, que aqui é realmente muito bem captava
Olhar sem brilho como escudo e a beleza como objeto entrelaçados por uma Melancolia inerente e a busca pelo conhecimento

Mas não só de beleza que Pathernope carrega tal como Nápoles ela carrega também a melancolia que aqui no filme a protagonista também traz junto a si, mas que é mais proeminente vista através do irmão mais velho Raimondo (Daniele Rienzo) considerado uma pessoa frágil por carregar essa melancolia inerente em um lugar tão lindo.
Quando o comandante ( Alfonso Santagata) diz a ela "Raimondo vê tudo, Raimondo sabe de tudo" acredito que seja uma conotação ao tipo de tristeza que ele carrega.
Até mesmo quando Raimondo confidencia a ele a não querer permanecer em Nápoles e não seguir os negócios da família. pois para ele é impossível ser feliz no melhor e mais belo lugar do mundo. Raimondo sempre foi motivo de preocupação da família devido a essa fragilidade e melancolia não explicada e que da a entender que a tristeza é proibida em um lugar como aquele

Temos também Sandri o amor da juventude de Pathernope que a olha com olhar de desejo até mesmo nos biquinis que estão secando na cadeira pós banho de mar e que parte também em uma aventura com Parthenope e Raimondo a Capri.
E acredito que essa relacão complexa dos dois irmãos também deve ter sido um dos motivos para Parthe ter ido estudar antropologia sendo bem curiosa ao conhecimento do que não sabe mas quer aprender a saber. ( só sei que nada sei - Sócrates- Platão)
E ela se mostra uma grande entusiasta dos estudos e de bate pronto responde as perguntas dos professores e sem aqueles respostas prontas sendo bem provocativas e pertinentes e que trazem o outro lado dela da inteligencia escondida.
Atrelada a essa curiosidade e que por diversas vezes faz a mesma pergunta ao professor Marotta. ( o excepcional Silvio Orlando ) mentor, confidente quase uma figura paterna, O que é Antropologia? e que ele so irá responder depois de muitos anos . E o professor Marotta se torna uma pessoa importante na vida de Parthenope
A beleza como objeto de desejo

Por ter essa beleza avassaladora Parthenope tem muitas vezes associada a sua beleza como mero objeto e por isso a incentivam a ser atriz.
Mas como uma certa contraditoriedade quando a diva veterana Flora Malva (Isabella Ferrari) diz a ela que uma atriz tem o dever moral de ser curiosa, em outro dado momento em encontro com a diva Greta Cool (Luisa Ranieri) e com Flora Malva dizem a Parthe que ela tem uma beleza avassaladora mas que no entanto nos olhos dela contrastam com um reflexo com um olhar sem brilho e frio
Ela até de uma certa maneira inicia seus estudos para ser atriz porém ela não quer ser a atriz que o mundo a época quer que ela seja, ou seja somente a beleza na superficie e volta a sua escolha a Antropologia um dos seus grandes amores, onde ela acaba invertendo a balança deixando de ser o objeto observado para se tornar a mente que observa e também a hiprocrisia que rodeia e é externada por Greta Cool
"um pequeno detalhe do humor ácido e quase - de 5 série- de Paolo Sorrentino, e que não passa despercebido: quando o diretor brinca com a sonoridade do sobrenome de Greta Cool e uma pequena analogia direta com o pequeno segredo vulgar que ela carrega, fazendo com que a fonética acabe entregando a personagem antes da revelação"
John Cheever

Gary Oldman faz uma pequena participação especial no filme como John Cheever uma figura lendária da literatura e persona real.
John Cheever era conhecido como Tcheckov americano por retratar a vida comum e que em seus livros trazia tambem a melancolia.
Aqui Parthe conhece seu idolo em Capri, mais como uma figura poética ela se assusta e se fascina com sua melancolia em dado encontro ele diz que a beleza pode ser uma arma de guerra ou quando declama sobre seu segredo ( que na vida real só foi revelado anos após sua morte que ele era gay ) aqui embalada pela música My Way de Frank Sinatra
As referências desde Trio Ternura, Teatro Oficina, e a Stanley Kubrick ( De olhos bem fechados)
A música que embala o trio Parthenope, Sandri e Raimondo a ilha de Capri é "A Gira" composta e cantada pelo grupo brasileiro Trio Ternura (lançada originalmente em 1973) e que aparentemente Sorrentino adora o contraste entre o ritmo solar e suingado brasileiro com a decadência aristocrática italiana.
A semelhança com o Teatro Oficina de Zé Celso (teatro dionisíaco) e o horror do ritual
Em certo momento do filme, somos levado junto com a protagonista com o "estranho da moto" a um lugar misterioso indo para um submundo mas que se assemelha a um tipo de teatro percebo uma certa semelhança com o Teatro Oficina de Zé Celso e o que ele representava e se inspirava como o teatro dionisíaco onde o sexo e o corpo são usados como ferramentas políticas e rituais para chocar e libertar seja na estética do excesso e do sagrado profano.
Nessa cena bizarra em questão, um grupo se senta em um grande salão a volta de uma cama onde um casal parece ter sido pego no flagra mas que não é bem o que parece, a medida que é mostrado no filme, descobrimos que se trata de um tipo de ritual de consumação carnal, entre esse casal da qual cada representa uma família tradicional porém rivais e inimigas uma da outra

E que através de uma mulher mais velha (que parece ser um tipo de matriarca) que narra quem eles são e porque eles estão lá para ver o ato ser consumado sem intimidade sem romantismo como um ato de estado (frio, funcional e desumanizado) e com estranho fetiche de voyeverismo, um ritual para selar um acordo entre clãs sendo puramente performático e desconfortável uma antropologia bizarra de um sagrado vulgar
De olhos bem fechados
E desse voyeverismo o filme de Sorrentino acaba se assemelhando com o polêmico de "Ölhos bem fechados" de Stanley Kubrick que assim como o personagem de Tom Cruise Parthenope entra em um ambiente onde o sexo é tratado como uma cerimônia de poder, cercada por uma elite que segue regras bizarras e impenetráveis. No ritual das famílias, o "querer ver" de Parthenope encontra o seu limite. O horror dela é o momento em que a curiosidade intelectual se choca com a feiura da realidade. Ela percebe que há coisas que, uma vez vistas, não podem ser "desvistas".
O Ritual do Cardeal: A Armadura de Joias
Então quando em outra passagem do tempo 1983 Parthe recebe o convite de Marotta para aprofundar os estudos da antropologia antes de ocupar o lugar do professor Marotta na universidade, e indo estudar o mistério de San Genaro em 1983 com um bispo/cardeal Tesorone ( o ótimo Peppe Lanzetta) ele a alerta para ficar de olho no comportamento de Tesorone apesar dele ser um grande estudioso era exebicionista egocentrico e vulgar. Aqui Sorrentino faz uma critica com o sagrado profano da igreja com vestuários, da qual ela fala de se sentir que o uso das vestes é tambem uma hipocrisia e que ao despir-se mostra estar com uma indumentaria de joias de ouro sobre o corpo com apelo sexual ( desculpe a referencia mas me lembrou a princesa Leia em Star Wars Episódio V o Imperio contra ataca )
Parthenope se torna uma espécie de "monumento vivo". Ela testa o Cardeal e a própria hipocrisia do sistema.
O sexo subentendido sela o pacto de que, naquele mundo, nada é puramente espiritual. Tudo é corpo e imagem.(profano)
Apesar de toda essa complexidade e beleza dos personagens e uma protagonista intensa e forte que Celeste Dalla Porta entrega com maestria, o filme transparece estar fora do tempo dos filmes atuais, quando trazem mais imediatismo em sua modernidade com respostas prontas, e que acredito que ele vai ser um filme divisivo.
Pois muitos vão gostar outros entretanto todavia, acredito que vão sentir uma grande morosidade quando assistem já que carrega uma cadência mais lenta, o que vai tornar ele mais cansativo apesar das 2 horas e 18 minutos de duração mas que parece serem mais longa do que parece

Com o professor Marotta (Silvio Orlando) vemos Parthenope ser mais real, verdadeira mostrando também suas falhas e é interessante quando ele diz você não me julga e eu não te julgarei, ou quando em outra sacada Sorrentino usa do professor para fazer uma brincadeira com a antropologia ao citar o diretor alemão Billy Wilder quando Pathernope não se sente preparada para ser professora e na qual Marotta diz
"Os professores precisam estar apenas um modulo a frente dos seus alunos" e quando ela pergunta quem diz isso e ele corresponde com Billy Wilder um grande antropólogo
E com Marotta que Pathernope tem uma cena peculiar, bizarra mas linda ao mesmo tempo no segredo que envolve ele e o filho dele teve até gente tentando entender qual era a doença do filho pos ver o filme
O ato final mostra uma grande salto temporal ate mesmo parecendo abrupto com uma Parthenope madura e lindamente interpretada pela lenda italiana Stefania Sandrelli como quem diz o tempo é implacável pois a beleza passa o conhecimento fica e que também vem a solidão
E junto a ela uma congruência com a torcida do time Napoli cantando a plenos pulmões "O surdato 'nnammurato" *** es a mulher mais bela entre todas, Ninguém é mais bela que você! Você foi o primeiro amor E será a primeira e a última para mim! Oh vida, oh minha vida
*Fato curioso eu sei que você também pensou como eu se o sorvete napolitano é de Nápoles, bom sim e não, em parte o sorvete tem origem italiana e lá no século XIX os imigrantes de Nápoles eram mestres em fazer gelato mais especificamente usando uma técnica chamada "spumone", que era um sorvete moldado em camadas, muitas vezes com cores e sabores diferentes, os de 3 cores e mais ligados as cores da Itália do verde, branco e vermelho e que foi exportada ao mundo e quando chegou nos EUA eles moldaram os sabores com os ingredientes que eles tinham e que é agora forma como conhecemos hoje com chocolate, baunilha e morango. e o termo passou a ser usado para descrever qualquer sorvete feito "ao estilo de Nápoles"
**Sorrentino tem como sua "voz" representar Nápoles como uma personificacão humana como uma cidade-mulher de uma forma simbolica O Espírito de Nápoles: traz uma identidade que é, ao mesmo tempo, melancólica, passional e eterna. Ela é a "sereia" que parou de cantar para se tornar terra, pedra e povo.
*** Paolo Sorrentino é torcedor do Napoli e quis mostrar essa paixão retratando a torcida pós titulo conquistado deppis de uma escassez de titulos com a tradicional música O surdato 'nnammurato ( o soldado apixonado)
Trilha sonora de Pathernope
Sinopse:
Nascida do mar de Nápoles e batizada com o nome do antigo mito da cidade, uma mulher ferozmente independente atravessa décadas entre amores, perdas e a busca por identidade, tornando-se ao mesmo tempo reflexo e enigma da cidade que ama.
Ficha técnica:
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino
Produção: Lorenzo Mieli, Anthony Vaccarello, Paolo Sorrentino e Ardavan Safaee
Direção De Arte: Carmine Guarino
Fotografia: Daria D’antonio
Montagem: Cristiano Travaglioli
Elenco:
Celeste Dalla Porta
Gary Oldman
Stefania Sandrelli
Silvio Orlando
Luisa Ranieri
Peppe Lanzetta
Isabella Ferrari
