Crítica |Rebelião Silenciosa (À Bras-le-corps) – 2025 (Suíça)
- Pê Dias

- há 12 minutos
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A emancipação feminina pode vir do chão de fábrica até mais do que pelo estudo formal
“Então quer usar o prêmio em dinheiro para pagar os estudos?”
Visto no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision de 23 a 29 abril de 2026
Disponível na plataforma de streaming Reserva Imovision

A frase mais acima é dita entre surpresa e um certo desdém por um membro da comissão que avalia um prêmio dado a moças virtuosas ― seja lá o que isso signifique, na qual nossa protagonista Emma (Lila Gueneau Lefas, A Fantástica Viagem de Margot e Marguerite, 2020) está disputando. A dica do conselho formado por pessoas da vila onde ela vive e também pelos seus patrões, o pastor Robert (Grégoire Colin, Bom Trabalho, 1999; Com Amor e Fúria, 2022) e sua esposa Elise (Aurélia Petit, Saint Omer, 2022) é que com o dinheiro do prêmio seria possível comprar o enxoval de casamento.

Logo percebemos de forma muito discreta que Emma tem o apoio do pastor Robert, um intelectual inconformado com a posição neutra da Suíça durante a Segunda Guerra Mundial. É vendo o país recusar abrigo aos refugiados franceses que Emma vai se politizando e, aos 15 anos, ver seus sonhos se despedaçando.

A diretora Marie-Elsa Sgualdo (autora do roteiro junto com Nadine Lamari e Paulina Ouvrard) traz aqui seu primeiro trabalho em longas, contando a estória da emancipação de Emma, empregada doméstica na casa do pastor, amiga da filha deste, Colette (Sasha Gravat Harsch) que mora com o pai Jean (Aurélien Patouillard) e as duas irmãs menores Nicole e Jo.

O roteiro aos poucos vai desvelando a personalidade de Emma, cujas contradições a tornam uma personalidade fascinante, se considerarmos sua pouca idade. Emma é uma garota calada, obediente, carinhosa com as irmãs e o pai. Curiosa e inteligente, desperta o apoio de Robert, um aliado nas situações mais difíceis. Já em relação à mãe Alice (Sandrine Blancke), que não mora com o pai e as filhas, dispensa o mesmo tratamento que a vila, se dirigindo a ela como “aquela mulher má”.

Alice por sua vez também é uma personagem interessante nas suas contradições: abandonou a família por um motivo inadmissível para as mulheres da época (seria admissível hoje?) e se arrepende, não sendo exatamente aquela mulher exemplo de subversão, mas que conquista autonomia emocional e financeira.
Outro personagem igualmente interessante é o pastor Robert. Inicialmente, até pela postura silenciosa e observadora podemos achar que se trata de mais um pastor como tantos outros que levam a ferro e fogo o texto bíblico. Entretanto, está mais pra um anjo caído, pagando o preço por ter consciência política e desejar que Emma siga um destino envolto em livros e saberes.

Durante o almoço para os convidados da família de Robert, começa o flerte entre Emma e Louis (Cyril Metzger, A Garota Radiante, 2021), momento em que nos familiarizarmos com a situação da Suíça durante a guerra, posição essa contestada pelo pastor, aceita pela esposa Elise e cinicamente comentada por Louis, um cara rico e de vida boa. Pode-se dizer que a vida de Emma toma rumos tortuosos tanto com o despertar político quanto com a imensa violência sexual que sofre.

A fotografia de Benoit Dervaux (O Jovem Ahmed, 2019) mescla cenas em tons mais claros e nítidos, porém, sóbrios na casa de Robert e uma paleta mais amarelada que mostra a pobreza da casa de Emma. O piquenique da família ambientado numa paisagem bucólica entre flores e montanhas contrastam com a violência que parece sempre estar à nossa espreita. Ao final da obra, já com Emma vivendo com Alice, as cores em tons laranja e vermelho, um tanto sujas, realçam a vida na cidade entre o chão de fábrica que garante o ganha pão das mulheres e os encontros em bares onde se percebe a aliança entre essas trabalhadoras diante do fim da guerra que se aproxima, e, cujo futuro é tão incerto quanto àquele que precede o conflito.

A vida de Emma toma rumos dramáticos mas nunca de forma melodramática: grávida, se vê obrigada pelas circunstâncias sociais e financeiras a casar com Paul (Thomas Doret, O garoto da Bicicleta, 2011) que sempre foi apaixonado por ela, mas que, como tantas histórias, se transforma em outro durante o matrimônio, parar com os estudos para tristeza de Robert e conviver com o desprezo do pai e o afastamento das irmãs.
Ao contar com o apoio da “mulher má” para vivenciar uma nova vida, dura mais livre de dogmas e hipocrisias, evidenciamos o ótimo trabalho da atriz Lila Gueneau que carrega no semblante coragem e ousadia, frutos do amadurecimento de uma jovem mulher que deixa pelo caminho alguns sonhos, mas que pode dar fôlego a outros. Em uma cena particularmente pungente, o roteiro mostra a troca de papéis entre Emma que sonhava estudar e Colette, que não se interessava tanto assim pelas letras, mas que, até por ser de uma classe mais abastada, tem por destino a universidade.

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Curiosidades: o filme é uma co-produção entre Suíça, Bélgica e França (https://www.imdb.com/pt/title/tt34973241/?ref_=mv_close)
A atriz Lila Gueneau ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Cinema de Fargo-Dakota do Norte (https://www.resenhando.com/2026/06/rebeliao-silenciosa-fala-sobre-o-peso.html)
Paralelamente ao seu trabalho como diretora, Marie-Elsa leciona cinema e é cofundadora do coletivo Terrain Vague, que reúne jovens realizadoras francófonas da Suíça (https://mostra.org/diretores/marie-elsa-sgualdo)
Para saber mais sobre a tal neutralidade da Suíça na guerra, já que, em se tratando de conflitos armados, nada é tão simples segue o link: https://www.swissinfo.ch/por/historia/a-ii-guerra-mundial-coloca-em-quest%C3%A3o-a-neutralidade-su%C3%AD%C3%A7a/72571737
Com várias indicações além do prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Fargo, Rebelião Silenciosa ganhou os prêmios de melhor montagem e fotografia no Swiss Film Prize (https://www.imdb.com/pt/title/tt34973241/awards/?ref_=tt_awd)




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