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Crítica | Embaixo da Luz de Neon (Come See Me in the Good Light) – 2025 (EUA) "Quando a morte pode ser rodeada de amor, pets e poesia"

Disponível na Apple TV

filme indicado ao Oscar 2026 a Melhor Documentário em Longa-metragem


“Qualquer um que pense que poesia é algo frívolo, nunca precisou de alguém para lhes dizer algo inexprimivelmente difícil de forma linda”


cartaz
cartaz

Durante um bom tempo eu era vidrada em documentários, afinal, assisti os grandes: Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Sempre uma dificuldade de se ter acesso a essa categoria de cinema, não me recordo nos tempos de Recife assistir algum documentário no Cine São Luiz, Veneza, Teatro do Parque ou Art Palácio. Fui me apaixonando pelo formato entre VHS’s e depois DVD.


Megan Falley,  Ryan White e Andrea Gibson,
Megan Falley, Ryan White e Andrea Gibson,

Então chegaram os streamings e uma enxurrada de documentários que falam sobre quase tudo, didáticos, autoexplicativos, muitas intervenções do/a diretor/a, sem ousadia estética e narrativa, pequenas pílulas de história e informativa. Todo esse preâmbulo pra dizer que me sinto um tanto desanimada para assistir documentários há algum tempo. Como o acesso continua difícil, provavelmente tem muita coisa boa sendo feita por aí, eu que não tenho ideia.


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Entretanto, três dos cinco concorrentes ao Oscar 2026 me chamaram a atenção: The Alabama Solution (disponível na HBOMax), daqueles que lançam inúmeras pedras em nossa direção, revelando que as piores condições de encarceramento também são características daquele país que se acha a moral do mundo; Cutting Throught Rocks (indisponível), sobre a primeira mulher iraniana eleita vereadora numa comunidade rural e Come See Me in the Good Light.


Good light
Good light

O título da obra  poderia ser traduzido como Venha Me Ver na Boa Luz, o que na minha opinião não ficaria interessante, daqueles casos em que a tradução literal pode matar o título. No Brasil o nome ficou Embaixo da Luz de Neon, o que me causou estranhamento, porém, faz sentido já que na casa de nossas protogonistas, num dos cômodos, há um letreiro neon.


A obra gira em torno do ano de 2024, numa abordagem íntima da poeta americana Andrea Gibson ao lado de sua esposa Megan Falley ― também poeta, compondo um mosaico do dia a dia do casal desde o recebimento da notícia devastadora sobre um câncer de ovário em 2021, o tratamento e os cuidados, incluindo e a certeza de que uma cura não era possível.

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Good light
Andrea Gibson

Eu nunca tinha ouvido falar sobre elas e o que me fisgou para assistir a um filme cuja premissa é uma doença praticamente incurável, podendo transformar a obra num rio de lágrimas, foram duas coisas: como uma poeta contemporânea retrataria seus últimos anos de vida e como seria abordado o fato de ser um casal lésbico.


Megan Falley
Megan Falley

As respostas a essas indagações me surpreenderam. O fato de Andrea Gibson e Megan Falley serem um casal não tem importância nenhuma na história, no melhor dos sentidos. Sabemos que o abandono da mulher doente numa relação heteroafetiva acontece recorrentemente, mas o filme não levanta essa bandeira de forma escancarada. Está ali o tempo todo, vê quem realmente quer. A obra é um rio, um rio que nos atravessa de forma mais afetuosa possível, com alegria e tristeza, gargalhadas, o aconchego da arte, dos pets e dos amigos, é comovente, nos invade de luz neon.


Conhecida como uma poeta performática, cuja poesia era bastante acessível mesmo para quem não vê nada de mais em poesia, a obra tem em uma de suas maiores qualidades fazer com que gostemos da Gibson (e corramos pra ler sua poesia), mesmo sem saber nada sobre ela, como é o meu caso, mas isso sem apelar para qualquer tipo de manipulação e sem apelos fáceis.


O que é tapete, o que é doguinho
O que é tapete, o que é doguinho

O diretor Ryan White, aqui também roteirista (The Case Against 8, 2014) com exceção de duas cenas nas quais ouvimos de muito longe sua voz, dirige de forma bastante respeitosa e nunca invasiva na intimidade de suas protagonistas. A câmera, mas também, o carisma do casal, nos deixa à vontade na residência onde se passa a maior parte do filme, somos amigos e passamos o fim de semana com elas. As duas comandam a narrativa com bastante naturalidade, seja nos momentos de graça ou nos de aproximação da perda.


Rotina de trabalho
Rotina de trabalho

O fato de Andrea e Megan serem poetas, é um bônus narrativo à obra: as cenas onde cada uma, mas juntas, estão dando forma aos seus trabalhos, a troca de ideias, as pequenas provocações que nos causam risos já são poesia em estado puro.



Rotina de trabalho
A caixa do correio

Ao longo da obra, Gibson nos conta um pouco de sua infância, família, a descoberta da sexualidade, o bullying, o seu entendimento sobre gênero, as ex-namoradas que nunca deixaram de ser amigas, o encontro com a poesia, o encontro com Megan, a descoberta do tumor. Toda essa narrativa impregnada de gosto pela vida, humor inteligente, olhos curiosos. O sorriso raramente sai de seu rosto. Ela consegue fazer poesia quando nos conta sobre uma dor de estômago que mais parecia uma anaconda dentro de si, linhas da palma da mão inundadas e um ataque de pânico: a dor já era o tumor no ovário.


Gibson ainda nos brinda com ótimas histórias onde, reza a lenda, ao ir ao casamento de seu médico, a festa era tão conservadora que a pista de dança foi dividida entre homens e mulheres. Andrea e Megan ficaram sem saber o que fazer, até irem ao estacionamento dançar. Além da sina da caixa do correio que sempre é quebrada pelo limpa-neve.


Embaixo da Luz de Neon
Embaixo da Luz de Neon

A montagem (Berenice Chavez; Pamela Anderson: Uma História de Amor, 2023) é simples e fluida, executando um mosaico entre as histórias de vida de Gibson e Falley, o início de suas carreiras, a rede de apoio na comunidade LGBTQIAPN+, as apresentações ao vivo. Com narrativa enxuta mas transbordando sensibilidade, tudo o que está na tela é o necessário e importante pra história, não há pontas soltas ou excessos de qualquer tipo.


Nossas personagens não se furtam a falar sobre tudo, desde ideações suicidas, decisão entre encerramento do tratamento para cuidados paliativos ou seguir com tratamentos experimentais. A fala de Gibson que constata que Megan vai precisar muito do apoio de Andrea quando Andrea se for, num momento de humor ácido delicioso, nos faz rir sem culpa. As idas às clínicas sejam para consultas de rotina ou a quimioterapia emocionam, mas sem qualquer maniqueísmo. Os momentos de boas notícias como a melhora significativa apontada num exame, um dia sem dor, o encontro com amigas, são agarrados com unhas e dentes.


O show
O show

Gibson deseja fazer uma última apresentação, cujo agendamento depende da instabilidade de sua saúde, que inclui o uso de um remédio que pode afetar bastante sua voz, sua ferramenta de trabalho. Quando finalmente se é possível fazer o show, não há como não se emocionar com a casa lotada e ingressos esgotados. Ao final, o monólogo de Andrea ao sair de carro com sua esposa para uma provável última viagem é pungente, lindíssima, permeada pela poesia tão simples e orgânica de Gibson.


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Toda essa energia e alegria que o documentário transpira não significa de forma alguma a romantização da doença, da dor e sofrimento, e toda essa aura de que boa arte só se faz nos piores momentos. A escolha de Gibson foi, apesar da doença e não por causa dela, que é possível se manter iluminada e vulnerável quando a morte bate à porta. Não há aqui a tal superação, mas sim, a mistura indescritível de se viver até o fim uma vida interessante com um bruto sentimento de injustiça de que a vida é finita. Gibson viveu como queria e fez jus a cada minuto de sua existência. Embaixo da Luz de Neon é um filme sobre a vida e não sobre a morte.


Embaixo da Luz de Neon (Come See Me in the Good Light)
Embaixo da Luz de Neon (Come See Me in the Good Light)

Confira o trailer do documentário



Curiosidades: Gibson faleceu em julho de 2025 aos 49 anos, mas estava presente na estreia mundial de seu filme no Festival de Sundance (https://en.wikipedia.org/wiki/Come_See_Me_in_the_Good_Light).

O diretor Ryan White em 2014 fez o documentário The Case Agaist 8 que aborda os bastidores do caso que derrubou a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia. Filmado ao longo de cinco anos, o documentário acompanha a improvável equipe que levou o primeiro processo federal pela igualdade no casamento à Suprema Corte dos EUA (https://www.imdb.com/pt/title/tt2107850/?ref_=nm_ov_bio_lk).


Sinopse

"Embaixo da Luz de Neon" é uma história de amor comovente e inesperadamente engraçada sobre os poetas Andrea Gibson e Megan Falley enfrentando um diagnóstico de câncer incurável com bom humor , sagacidade e uma parceria inabalável. Por meio do riso e do amor inabalável, eles transformam a dor em propósito, e a mortalidade em uma celebração emocionante de resiliência. "Embaixo da Luz de Néon" é dirigido por Ryan White, que também produz ao lado de Jessica Hargrave, Tig Notaro e Stef Willen.

©2023 por Lagoa Nerd. 

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