Crítica | Deux Personnes Èchangeant de la Salive (Two People Exchanging Saliva), 2024 (França/EUA) "Ah, essa criatura chamada desejo"
- Pê Dias
- há 17 horas
- 3 min de leitura
Indicado ao Oscar 2026 de melhor curta metragem em live-action
Disponível no Vimeo mas apenas com legendas em inglês para quem quiser acessar clique no link https://vimeo.com/1164101012?fl=pl&fe=sh
e no Youtube https://www.youtube.com/watch?v=RuOEEu--j2Y
“ O que você vai pedir? Me chamou de você?”

O desejo todos sabemos inverte regras, desenlaça os nós das fronteiras, mistura pulsão de vida e morte e te joga no fundo do poço. Mas, também é ele que te arranca de lá. Como propulsor de vida é o alvo predileto dos autoritarismos, dos frustrados e dos ressentidos.
Durante os 36 minutos deste curta-metragem, salivamos junto com as protagonistas. A saliva vira lágrima quando, por uma questão de segundos, entre um olhar no espelho e o abrir de uma porta, toda a diferença do mundo poderia ser feita.

Numa distopia em preto-e-branco, ao som de violinos retorcidos e muitas, muitas caixas de papelão onde os infratores da lei são lançados para a morte, acompanhamos a vendedora de uma loja de departamentos, Malaise (Luàna Bajrami; Retrato de Uma Mulher em Chamas, 2019) e uma cliente importante, Angine (Zar Amir; Holy Spider, 2022) que se apaixonam em meio à proibição de se trocar saliva, mesmo entre os casados. As pessoas comem cebolas e alhos para evitar o toque entre os lábios e a revista na entrada do trabalho é uma bela de uma baforada na cara do segurança.

A capacidade criativa do cinema de metaforizar as consequências do autoritarismo, do moralismo, da hipocrisia e racionarismo é infinita. Minha torcida para essa pequena pérola levar o Oscar de curta live action de 2026.
Mas quem melhor traduziu toda a gama de sentimentos que essa obra proporciona foi meu amigo Alexsandro Vaz, cuja escrita me fascina e deixo esse espaço para ele:
Crítica por Alexandro Vaz* (@alexsandro_vaz_r)
Two People Exchanging Saliva é um dos curtas que está concorrendo, nesta categoria, ao Oscar 2026. Ele é uma tragicomédia sombria e política.

Numa Paris distópica, beijar é crime, o desejo feminino é vigiado, e a violência vira moeda social: tapas que compram e substituem o afeto, hematomas viram status, o consumo se dá pelo choque.
Corpos femininos são controlados, apagados e descartados em público, enquanto o desejo masculino heteronormativo permanece autorizado.

Com montagem em capítulos e narração em off, o filme constrói uma alegoria afiada do Ocidente adoecido, atravessado pela repressão religiosa e pela ascensão da extrema direita.
Quando o afeto é proibido, só resta a brutalidade; e ela é espetacularizada.
Um filme inquietante sobre quem decide quais corpos importam, quais desejos são permitidos e quem pode amar.
Um filme que pede urgência para sua audiência: seco, político e impossível de ignorar.

Sobre Alexandro Vaz*
*Pedagogo, doutorando em Formação de Professores e mestre em Educação; habito o espaço entre a teoria e o sonho, movido por uma inquietação crítica diante de um mundo em eterna transformação. No cinema, nos livros e na música encontro respiro e matéria para elaborar frustrações, desejos e pequenas alegrias, escrevendo como um poeta insone que converte o excesso em palavra. Entre gatos, cachorros, páginas abertas e caminhadas pela cidade, observo a vida em movimento e coleciono paisagens e histórias, acolhendo e questionando o que me atravessa enquanto, em silêncio fértil, cultivo as narrativas que ainda desejo contar.
Curiosidades: Dos 5 curtas live action que concorrerão ao Oscar 2026, um deles está na Filmicca (Jane Austen’s Periodic Drama), o que me leve a crer que se não todos, ao menos alguns poderão seguir para outros streamings em breve, incluindo este.
O curta vem acumulando inúmeros prêmios em vários festivas (https://www.imdb.com/pt/title/tt33365259/awards/?ref_=tt_awd).
Os dois diretores do curta, Natalie Musteata e Alexandre Singh são também multiartistas, envolvidos com curadoria, escultura, instalação, literatura, performance (https://en.wikipedia.org/wiki/Natalie_Musteata e https://spruethmagers.com/artists/alexandre-singh/).


