Crítica| Milonga, 2023 (Uruguai/Argentina) : "Quando a dança pede um par, mas se está sozinha para bailar"
- Pê Dias

- há 33 minutos
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Visto no Circuito de Cinema Saladearte, Cinema do Museu, Salvador-BA

Ainda não entendo totalmente os percalços e labirintos relativos à distribuição de filmes no país (é até bem mais difícil para os nacionais), entretanto, só em dezembro de 2025 chegou a alguns cinemas brasileiros (chegou primeiro em alguns e estreará em outros em janeiro deste ano) o filme Milonga, ganhador de melhor filme e roteiro no 34° Cine Ceará, edição de 2024 (https://www.cinemaescrito.com/2024/11/34a-cine-ceara-2024-premiados/). Em meio a inúmeros filmes que concorrerão ao Oscar 2025 (ao Globo de Ouro que já passou) entre outros festivais, escolhi esse filme sem nada saber e fui vê-lo com uma dupla de amigues.
É perceptível que o cinema está cada vez mais conectado com temas como a maternidade e a violência doméstica mas, sob um outro prisma, menos passivo e mais crítico, descortinando conceitos engendrados no mito do amor incondicional (o ser mãe que padece no paraíso) e da estrutura patriarcal (homens donos dos nossos corpos, e portanto, podem fazer o que quiser com eles).
Em seu primeiro longa-metragem, a diretora e também roteirista Laura Gonzàlez, toca em assuntos bem sensíveis: Milonga aponta as consequências de uma vida inteira marcada pela violência e a solidão na meia idade, que pode muito bem ser fruto também da violência em si.

Rosa (Paulina García; Glória, 2013) nos é apresentada enviando uma encomenda para alguém ainda desconhecido para nós, que se encontra na Prisão de Las Rosas. Seria a intenção da diretora nos fazer uma rima?
Em seguida, nossa protagonista tenta encontrar a nora Alejandra (Clara Alonso) e o neto Sebas (Thomás Davila) e percebemos que ali, se existia uma relação afetuosa entre as mulheres, não existe mais. Paulina García que já foi premiada em Berlim com o Urso de Prata de melhor atriz por Glória, traz no corpo um peso, e no olhar, uma profunda melancolia que por vezes reveza com uma alegria mais contida, cuja narrativa vai lentamente revelando que algo no passado desta mulher não foi elaborado, ou seja, o passado mais do que nunca é presente.
A câmera quase sempre parada em seus enquadramentos “imita” a rotina de Rosa que entre o uso do carro para as compras e tentativas de mandar encomendas e, uma casa relativamente grande mas, gradeada, vive um dia a dia sem grandes acontecimentos. Aparentemente o único afeto presente é o da cachorrinha.

Através de poucos personagens, toda a engenharia por trás da imensa dor que Rosa carrega consigo vai se revelando. A amiga de infância que estava um tanto afastada, Margarita (Laila Reys), de personalidade oposta à de Rosa, tenta trazê-la de volta aos momentos de diversão, ao que parece, ligados à dança, em especial à Milonga, um tipo de tango mais ágil. Pelos diálogos com Margarita sentimos que há histórico de violência com o finado marido, cujas circunstâncias desta morte não sabemos. Assim como as pouquíssimas palavras trocadas e quase sempre ríspidas e impacientes da sua nora Alejandra, desconfiamos que há mais situações misteriosas, desta vez em relação ao seu filho, Sergio (Rafael Beltrán).
Um belo dia Rosa resolve colocar à venda uma camionete que chama atenção de um homem, Juan (César Trancoso; O Banheiro do Papa, 2007) que após negociações relativos ao preço justo do veículo, acaba por aceitar cuidar da pintura do muro de Rosa. Apesar de um recurso um tanto usado, não deixa de ser curioso e até um tanto engraçado perceber que a cachorrinha, legítima dona da casa, não gosta nem um pouco de Juan.
O roteiro, escrito pela própria diretora, traz um estranhamento para essa nova convivência (talvez a única de Rosa), não sabemos nada sobre Juan, um homem mais novo que ela, multifuncional e um tanto...bronco. Uma referência sutil, ou nem tanto, ao machismo que não nos dá um minuto de paz, é feita por Juan, sobre a mudança da cor do muro que Rosa quer fazer: deve passar primeiro pelo crivo do seu marido.

Rosa começa então a se abrir, seja para uma nova amizade ou quem sabe um novo amor, além de começar a frequentar o clube Milonga, saindo com sua amiga Margarita e seu namorado Paquito (Eduardo da Luz), um pé de valsa típico.
O estranhamento nunca nos deixa, seja nos momentos nas quais Juan está pintando o muro, que sai do branco para o verde, seja no convite para que ele almoce com ela, ou para que ele a acompanhe ao clube. E é nesse momento que pequenos gestos de Juan ao estar completamente desconfortável no salão de dança, que percebemos que aquele homem pode ser violento, além de racista, ao ser apresentado para Paquito (será que só eu percebi isso?).
A narrativa conta ainda com alguns flashbacks rápidos num esperto trabalho de montagem (da própria diretora Laura Gonzàlez e Claudia Abend), demonstrando que, além de Rosa se surpreender com o que lembra, o passado é extremamente traumático.

Sem nunca julgar nossa protagonista, a diretora constrói uma obra que passa pouco tempo nos momentos mais alegres, plantando na estória pistas de inúmeras violências, como durante a visita do cunhado de Rosa, Rómulo (Jean Pierre Noher; Diários de Motocicleta, 2004), que ao sentar no braço da poltrona onde ela está, a deixa desconfortável e atravessada pelo medo, entregando a possibilidade de assédio por esse homem no passado.
Entendendo completamente que um dos trunfos do filme é sua queima lenta, sem apressar as coisas, diria que algumas cenas de contemplação do dia a dia de Rosa poderiam ficar de fora, talvez dando mais tempo para que pudéssemos enfim deduzir o que de fato aconteceu na vida dessa mulher mas, não tão perto do seu final. Uma diretora até agora de curtas pra, sem dúvida nenhuma ficarmos de olho.
O dilacerante final nos remete a seguinte pergunta: seria possível depois de uma vida marcada pela violência, reconstruí-la sem repetir as mesmas escolhas? E como recomeçar quando, ao não conseguirmos sair de tais situações, destruímos a vida de outros? Dizem por aí que nos perdoar é a coisa mais difícil de se fazer.

Curiosidades: O ator César Troncoso é um velho conhecido nosso, já que fez alguns filmes nacionais como Hoje, 2011 (de Tata Amaral com Denise Fraga), Benzinho, 2018 (de Gustavo Pizzi e com Karine Teles), Faroeste Caboclo, 2013 (de Rene Sampaio com Fabricio Boliveira e Isis Valverde) e Elis, 2016 (de Hugo Prata com Andreia Horta e Caco Ciocler). E como se não fosse pouco, a novela de 2013, Flor do Caribe.
MILONGA
2023 | Argentina, Uruguai | Drama | 106 min.
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Laura González
Fotografia: Sergio Armstrong (indicado ao Oscar por "No")
Som: Federico Moreira
Montagem: Laura González, Claudia Abend
Produção: La Uruguaya Films, com apoio do INCAA (Argentina), INCAU, FONA e Ibermedia
Elenco: Paulina García, César Troncoso, Laila Reyes, Paola Venditto, Jean Pierre Noher, Clara Alonso e Rafael Beltrán
Distribuidora: Kajá Filmes.






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