Crítica | Feras no Jardim (Don’t Let’s Go To The Dogs Tonight) – 2024 (África do Sul)
- Pê Dias
- há 13 horas
- 7 min de leitura
Disponível na HBOMax
“Gente, só é feliz, quem realmente sabe, que a África não é um país” (Mufete, Emicida)

A garotinha Bobo (Lexi Venter), assim chamada por todos, vive suja e com cabelos desgrenhados, seus dentes de leite estão caindo, é amorosa com seus vários cachorros e o gato Fred, anda de moto e tem uma espingarda. No meio da noite ela tenta acordar a irmã Van (Anima Reed) para acompanhá-la ao banheiro, mas não consegue e, se conseguir, levará uma surra. Afinal, uma menina de sete anos já pode ir fazer xixi no meio da madrugada sozinha. O caminho até o banheiro com uso de uma vela é tortuoso devido à imaginação da menina, talvez de qualquer criança, onde monstros como bicho papão podem aparecer e lhes fazer algum mal. Mas, para Bobo o monstro são os terroristas. E os terroristas são os africanos. E essa afirmação vai percorrer todo o filme.
Baseado no livro autobiográfico da escritora britânica-zimbabuense Alexandra Fuller (aqui roteirista), Don’t Let’s Go To The Dogs Tonight, ― algo traduzido como “não vamos perder o controle essa noite”, o filme narra pelos olhos de Bobo, e portanto Alexandra, sua infância na Rodésia, que mais tarde se tornaria Zimbábue, num momento de conflito armado e eleições que definiriam o futuro do país até então colônia da Grã-Bretanha.
Para alguns talvez seja necessário mais embasamento histórico para entender os acontecimentos, para outros, os diálogos que nunca são expositivos de uma maneira didática (isso é um elogio), as imagens do noticiário na TV ou do som do rádio sejam suficientes. Enquadro-me no primeiro caso, mas desta vez fiz o inverso do que costumo fazer quando não sei nada ou quase nada sobre o contexto político de uma obra: assisti ao filme primeiro, mesmo sem entender algumas coisas, e depois fui pesquisar.
E por falar em história, o contexto aqui é gigantesco e qualquer resumo poderia soar de forma muito simplificada sobre os acontecimentos entre 1964 e 1980. Em todo caso, arriscarei um.
Antes de se chamar República do Zimbábue, esse país sem saída para o mar do sul da África, denominava-se Rodésia do Sul (1989) e depois Rodésia (1965). Como mais uma colônia europeia, no caso a Grã-Bretanha, foi através da guerra que conseguiu sua independência (Guerra da Rodésia ou da Libertação do Zimbábue), conflito que assolou o país por 15 anos, ― me soa um tanto redundante as palavras guerra/conflito e país assolado.

O governo da Rodésia era liderado pelo primeiro ministro Ian Smith que pretendia manter o domínio da minoria branca do país (em 1965 existiam 230 mil brancos e 4,2 milhões de negros). Se contrapondo ao governo havia a União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU) e seu braço armado, o Exército de Libertação Nacional Africano do Zimbábue (ZANLA) e a União Popular Africana do Zimbábue (ZAPU) de orientação Marxista-lenista e seu braço armado, o Exército Revolucionário Popular do Zimbábue (ZIPRA). Ambos tinham o mesmo objetivo de libertação apesar de ideologicamente diferentes. Entre guerrilhas e acordos que não deram certo ao longo do tempo, manobras não reconhecidas pela comunidade internacional e uma insustentável minoria branca no poder, entre 14 de fevereiro e 4 de março de 1980 houve eleições livres com a vitória retumbante do líder Robert Mugabe contra o bispo apoiado pela população branca Abel Muzorewa.
É nesse período de eleições que a obra se debruça através da narração voice over de Bobo, que sob a destreza do seu olhar, nos infiltrando na vida de uma família branca, privilegiada e de mentalidade colonialista (também me soou redundante aqui…).
O filme abre com uma câmera subjetiva que nos leva a conhecer partes da casa, com movimentos bruscos passando de uma personagem à outra num dos momentos de maior vulnerabilidade das pessoas: o sono. Em seguida começa a angústia de Bobo com a ida ao banheiro e o enfrentamento ao bicho-papão-terrorista.
A partir daí Bobo vai nos contando como é vida na fazenda de sua família, uma propriedade adquirida durante o período de colonização do país e defendida com unhas, dentes e metralhadora pela matriarca Nicola Fuller, vivida pela atriz Embeth Davidtz (O Homem Bicentenário, 1999, Uma Noite Alucinante 3, 1992). Embeth, americana de origem sul-africana, acumula três funções na obra: diretora em seu debut, atriz e roteirista.
Bobo é a alma do filme com suas impressões e “filosofias” sobre a infância vivida de forma livre na natureza e a guerra que paira no país. Entre narrar os acontecimentos com a ingenuidade que é peculiar a qualquer criança de sua idade e fazer perguntas desconcertantes, acompanhamos o contexto político da época e a dinâmica familiar. Como quando ela pergunta à mãe se, caso eles percam a guerra, vão virar comunistas ou se tudo vai continuar normal. Ou quando a pergunta é para a mãe e a avó, ela própria incluída, se são racistas e, Nicole, responde negativamente com a certeza cínica dos colonizadores.

Nunca fica muito claro o que Nicole faz, há pistas de que seja policial e o esposo Tim (Rob Van Vuuren) ao que parece pertence ao exército de contra insurgência, se ausentando do filme por um tempo ao ir às trincheiras com os companheiros, todos brancos.
O roteiro não mostra de forma direta nenhum conflito sangrento, salientando o clima de insegurança pela qual os brancos passam e a euforia da população negra. Os programas de TV, que têm lado definido, falam em massacres de fazendeiros brancos, e apesar da ocupação e colonização, os terroristas por certo, são os africanos. Já as notícias do rádio enfatizam o clima de eleição. Nicole não se furta de pedir (ou exigir?) voto para o candidato da branquitude, o bispo, como é chamado no filme, para empregada da casa de repouso onde estão os avós de Bobo.
Apesar dos questionamentos de Bobo (ela chega a perguntar pra mãe se elas são africanas e a resposta generalista de Nicole é que tudo é complexo) e o afeto que tem pela empregada da casa, Sarah (Zikhona Bali), a garota já reflete nas atitudes racismo e mentalidade colonialista, como na cena em que ao brincar com crianças negras, é ela quem manda na brincadeira.
A relação entre Bobo e a empregada também é explorada sob um ponto de vista político. Há afeto entre as duas e Sarah nunca deixa de corrigir a garota, seja através de uma bronca ou das estórias ancestrais. Segundo o esposo de Sarah, Jacob (Shilubana N Fumani), também empregado da família e que não nutre afetos positivos por eles, tudo indica que essa relação de carinho entre ambas, ao ser explícita, pode irritar alguma facção que luta pela liberdade do país, trazendo consequências para a esposa. O ambiente de paranoia e medo, tando dos negros e brancos é explorado com competência.

A fotografia (Willie Nel) transmite um Zimbábue solar, seco, com muita luz em seus planos abertos na natureza. Bobo quase sempre está em primeiro plano ou plano fechado, e com isso captamos sua curiosidade ao que acontece seu redor. Pela fotografia também passamos a acompanhar um pouco a dinâmica do país: a euforia no centro da cidade com as eleições, as fachadas destruídas como resultado da guerra, os bairros melhores estruturados e suas casas bonitas pertencentes à minoria branca com seus jardins impecáveis cuidados pelos empregados negros.
A direção de arte constrói uma “casa grande” realmente grande e caótica, com armas espalhadas pelos cantos, que espelha como a família Fuller se sente em relação aos ventos libertários que estão por chegar. À medida que o resultado das eleições vai se aproximando, Nicole se afunda na bebida e no desespero, ao perceber que pode perder seus privilégios. A personagem vai ficando cada vez mais arisca em relação à população negra e se agarra à propriedade a ponto de ameaçar quem a “invade”. Uma cena em particular em que algumas pessoas estão celebrando seus ancestrais enterrados na propriedade dos Fuller aponta quem é o verdadeiro invasor. Ao mesmo tempo, Nicole experimentou a tragédia, aquela dor que não tem sentido nem explicação, o que dá mais uma camada complexa à personagem que não pode ser entendida apenas pela faceta colonialista.
Mesmo sem interferir de forma negativa na obra, a montagem (Nicolas Cortanas) infelizmente comete dois erros: no início do filme vemos Bobo andar de moto com sua espingarda pendurada nas costas. Em certa altura a arma some e logo em seguida aparece de novo. Em outro momento ela e Nicole estão no campo conversando e, a arma pendurada em Nicole, aparece em duas posições diferentes inexplicavelmente.
Don’t Let’s Go To The Dogs Tonight é um filme dirigido e roteirizado por duas mulheres brancas mas, que nunca romantiza o colonialismo e nem dão palco pra ele no sentido de que, os africanos precisam dos brancos para serem civilizados. Ao contrário, ele questiona o racismo e o colonialismo, seja através das cenas que contemplam os modos de vida da população, seja pelos diálogos precisos e principalmente pelo olhar da sagaz Bobo.

Curiosidades: O título em inglês do livro remete ao poema de A. P. Herbert, “The Old Vicarage, Grantchester”, publicado em 1912, que sugere a ideia de se entregar ao prazer e ao caos. A frase pode ser traduzida livremente como “vamos nos perder esta noite”. Ao acrescentar o “Don’t”, porém, Alexandra altera completamente o sentido: “Não vamos perder o controle esta noite” (https://www.revistabula.com/155457-escondido-na-hbo-max-drama-baseado-em-best-seller-do-new-york-times-merece-ser-descoberto-hoje-mesmo/).
Seu primeiro livro, Don't Let's Go to the Dogs Tonight , publicado em 2001, é uma autobiografia sobre a vida com sua família no sul da África. Ganhou o Prêmio Memorial Winifred Holtby em 2002. No mesmo ano, foi incluído na lista de "Livros Notáveis" do The New York Times e finalista do Prêmio de Primeiro Livro do The Guardian . Uma sequência, Cocktail Hour Under the Tree of Forgetfulness, sobre sua mãe, Nicola Fuller, foi publicada em 2011 (https://en.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Fuller).
Para saber mais sobre a guerra: https://www.thecollector.com/what-was-rhodesian-bush-war/
