Crítica| Uma Infância Alemã (Amrum) – 2025 (Alemanha)
- Pê Dias

- 10 de jun.
- 6 min de leitura
A angústia de uma pré-adolescência entre o fascismo e a tábua das marés.
Visto no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision de 23 a 29 abril de 2026
Disponível nos cinemas a partir do dia 25 de junho distribuido pela Imovision

Longe mas, nem tanto, geograficamente da guerra, e intimamente muito perto de duas posições radicais de pensamento, acompanhamos Nanning (Jasper Billerbeck) na sua trajetória de amadurecimento durante a segunda grande guerra. Vindo de Hamburgo com sua família, cidade de importância estratégica para o nazismo, membro da Juventude Hitlerista mas, sem qualquer convicção sobre o significado disso, uma mãe adoradora de Hitler e uma tia progressista, Nanning protagoniza uma história cuja perspectiva não é muito explorada no cinema: quem são os alemães que não aderiram ao pensamento fascista, odiavam a guerra e que também sofreram suas consequências, principalmente econômicas. Não apoiar o sistema e nem a guerra não os isentavam de todos os horrores.

O diretor Fatih Akin (Soul Kitchen, 2009; Aos Pedaços, 2017) escreve o roteiro a quatro mãos, juntamente com o diretor, ator, dramaturgo Hark Bohm, cuja história se inspira na sua infância. Hark faleceu em novembro de 2025 aos 86 anos, mas pôde apreciar alguns lançamentos do filme antes de sua morte.
Através dos olhos de Nanning assistimos de longe, assim como os próprios habitantes da ilha de Amrum, a morte de Hitler e a rendição da Alemanha. Mas, também a intimidade da casa do garoto, que através de uma angústia muito palpável, trafegando entre a inocência de típica de qualquer menino de sua idade e o sentir-se o homem da casa, tenta lidar com o fanatismo da mãe, a chegada de mais um irmão, o posicionamento da tia e a ausência do pai que faz parte do alto comando do regime.

A obra faz um mergulho na rotina dos moradores da ilha, inicialmente através de aviões alemães que despejam bombas no oceano (para se livrar do peso) e um pouco depois, com a chegada de refugiados poloneses (Silésia e Prússia Oriental) em carroças. Além de adultos, há crianças e adolescentes que serão levados para os hotéis abandonados, o que nos faz entender que a ilha, antes da guerra, vivia tempos mais prósperos.
Nanning e seu amigo Hermann (Kian Kӧppke), filho de Tessa (Diane Kruger, Bastardos Inglórios, 2009; Aos Pedaços, 2017) trabalham com ela na plantação de batatas e logo percebemos que esta, como quase todos na ilha, desaprova o regime nazista, seja pela ideologia, seja pela condição precária na qual os ilhéus são jogados durante a guerra.

A forma como somos introduzidos à família de Nanning, com a revelação de uma certa harmonia, principalmente entre sua mãe Hille (Laura Tonke, 22 Bahnen, 2025) e a tia Ena (Transtorno Explosivo, 2019) tocando piano juntas, é uma das qualidades do roteiro. Há uma certa sutileza em se descortinar o quanto essa família pode estar dividida e o quanto Nanning ainda não tem noção da realidade fora dos limites de Amrum. Como a cena em que Hermann, ao buscar na casa do amigo um livro emprestado, sentimos um profundo desconforto com a apresentação bastante natural que Nanning faz sobre os livros que o seu pai escreve, um deles, de título bem suspeito: “ a traíção da biologia”.
Essa aparente harmonia cai de vez quando Nanning conta sobre a chegada dos refugiados e uma frase proferida por Tessa naquela ocasião, leva o caos ao jantar em família, com o garoto sendo impiedosamente interrogado por Hille. Ao proteger o sobrinho, descobrimos o lugar das irmãs na ideologia política. Para nosso protagonista é a porta de entrada para uma realidade mais dura, até ali, não experienciada por ele, o amadurecimento entre a beleza de se ter uma infância numa ilha, no meio de uma guerra e ainda pertencer a uma família vista com desconfiança por quase todos na comunidade.

O fotografia (Karl Walter Lindenlaub, Independece day, 1996) capricha nos tons cinza e marrom, dessaturizando o azul e verde das roupas. Essa escolha traz um sentimento de isolamento daquelas pessoas e toda a dificuldade econômica que a guerra traz. De certa forma, elas se orgulham de não estarem envolvidas com o nazismo vindo do continente. Confesso que só percebi que o filme não era preto-e-branco depois de algum tempo, tamanha impressão me causou a escolha da palheta de cores e o quanto foi eficiente para criar um clima de desolação.
Mentalmente divido o filme em três capítulos: bandeira do nazismo no alto do mastro no início do filme, meio mastro quando as notícias sobre a morte de Hitler chegam pelo rádio e no chão (graças a tia Ena) quando a Alemanha se rende.
Com a notícia do suicídio de Hitler, Hille passa por uma parto prematuro, entra em depressão pós-parto e só deseja uma coisa: pão branco com manteiga e mel. Hanning então começa sua aventura para agradar a mãe.

Um dia, ao chegar na escola, tenta defender os “polacos” refugiados do bulliyng dos colegas, mas se vê descriminado também, por não saber o dialeto da ilha e, portanto, não ser um deles. Ser de Hamburgo, não é nada bom para o currículo. A manteiga que ele conseguia com Tessa, não rola mais. Sua mãe a acusou de baixar a moral dos soldados ao proferir certas palavas e assim, um oficial nazista a informa que será investigada. Tessa não perdoa o garoto considerando que ele fez intriga. Ele tenta conseguir mel com a apicultora Hedi (Jordi Lukaczik), mas as abelhas têm seu tempo.
Ele precisa arrumar comida para o jantar e negocia com o pescador Sam Gangsters (Detlev Buc) uma forma de ajudá-lo na pescaria e levar pra casa o alimento. É nessa saída para pescar que ele descobre sobre seu tio Theo (Matthias Schweighöfer, Oppenheimer, 2023) que foi traído pela irmã Hille. Nosso pequeno herói sonha com o tio, sintoma de uma culpa que passa a sentir. Tem sua comida roubada por dois jovens refugiados, aqueles mesmos que ele tentou defender na escola. Para além de querer agradar a mãe que está triste, ele acha que ela pode morrer de fome, já que o alimento está mesmo escasso na ilha. Não vai mais à escola e se afasta do amigo.

Outros personagens ainda passam pela aventura de Nanning, como o padeiro Tewe (Marek Harlof), o médico e o seu tio nazista Onno (Jan Georg Schütte) que mora no continente. Ao encontrar esses personagens, mais ele vai tomando conhecimento do contexto que o cerca. A visita ao tio se revela a maior aventura do garoto, ao se vestir a caráter para agradá-lo, ser obrigado a cantar o hino da Jungvolk (ramo infantil da juventude hitlerista), voltar de bicicleta com a maré subindo e, assim, conseguir um pouco de manteiga.
A maior ruptura acontece quando a Alemanha se entrega. A comunidade faz festa, Hille e Ena se distanciam de vez, a missão do pão branco não sai como esperado. Os privilégios de uma elite que apoiava o regime nazista se desfaz da noite pro dia como mostra uma ida de Nanning e Hille ao açougue da comunidade. A narração de uma carta do pai de Nanning para Hille relata o que acontece para além das areias de Amrum.

Se posso indicar dois pequenos defeitos no filme são, o momento em que Nanning acaba salvando Oskar (um dos adolescentes refugiados que o agrediu) e a interação ao final da obra entre Nanning e a irmã de Oskar: a primeira mal executada e a segunda mal construída. Mas nada que não tire a beleza da obra.
Amrum faz um pequeno e afetuoso recorte daquilo que vibra entre bombas e exércitos e que muitas vezes não estão visíveis, já que os fronts geralmente protagonizam as histórias. Cenas de Nanning contemplando voo de gaivotas, abelhas nas flores e besouros ao sol, logo após as notícias do suicídio de Hitler, faz uma bela pausa na melancolia daqueles dias, sinalizando que ainda há esperança num mundo menos bélico. Apesar de sabermos que atualmente ter esse tipo de esperança, pareça mais com delírio.
PS: menção honrosa para a Tessa de Diane Kruger ao ser confrontada pelo oficial nazista e sua saudação nazista completamente blasé e preguiçosa. Foi divertido.

Curiosidades : Amrun estreou mundialmente no Festival de Cannes de 2025, marcando a volta de seu diretor, Fatih Akin à Seleção Oficial de Cannes após 8 anos (https://en.wikipedia.org/wiki/Amrum_(film)).
O roteiro é baseado nas memórias de infância de Hark Bohm (que aparece ao final do filme) e também deveria ter sido dirigido por ele antes de entregá-lo a Fatih Akin (https://www.imdb.com/pt/title/tt22507216/trivia/?ref_=tt_dyk_trv).
Apesar da personagem Hille ter verdadeira adoração pelo pão branco com mel e manteiga, esse pão era considerado pelo nazismo indigno de um verdadeiro alemão, chegando a ser banido em 1936 pelo departamento de saúde do Partido nazista (https://www.nytimes.com/1936/05/21/archives/eat-nazi-slogan-ordered-in-reich-white-bread-is-unworthy-of-true.html)
Sobre Hamburgo ter sido um centro estratégico na 2ª Guerra Mundial : https://hotelatlantichamburg.com/pt/2025/06/22/o-lado-mais-sombrio-de-hamburgo-explorando-a-historia-e-os-memoriais-da-cidade-durante-a-segunda-guerra-mundial/
Hark Bohm teve uma longa colaboração com o diretor Reiner Werner Fassbinder (https://en.wikipedia.org/wiki/Hark_Bohm)




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