Crítica| Drømmer (Dreams), 2024 (Noruega) “ “Eu sei como é sentir o amor, mas não sei como ele é”
- Pê Dias

- há 20 horas
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Disponível no Reserva Imovision
“Eu sei como é sentir o amor, mas não sei como ele é”
“ Já se sentiu assim? Totalmente sem vida? Mas precisa continuar vivendo? O que é tão impossível quanto sem sentido?

Nos dois primeiros minutos de Drømmer um letreiro que toma quase todo o espaço da tela indica que o filme é o terceiro de uma trilogia do diretor Dag Johan Haugerud, mas todos de 2024. À medida que os nomes vão desaparecendo da tela deduzimos que Sex é o primeiro, Love o segundo e Dreams o último.

As trilogias cinematográficas, em especial aquelas nas quais não há ordem para assistir me fascinam. A trilogia das cores de Krzysztof Kieślowski, a de Oslo de Joachim Trier ou mesmo a trilogia Pusher do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (nesta aqui talvez seja importante mas não fundamental usar a ordem) me causam um certo furor e curiosidade, além de uma jornada de caça aos filmes. Infelizmente ainda não consegui ver os outros dois que compõem esta trilogia aqui, mas torço para que tenham o mesmo encantamento que Drømmer me proporcionou.

A abertura do filme com a imagem de uma longa escada em meio à neblina e aos pensamentos filosóficos de Johanne (Ella Øverbye; Nossas Crianças, 2019) já dão o tom da obra: delicadeza, erotismo e melancolia. Nada mais belo que metamorfosear a dor de ser adolescente que, como o conteúdo daquela nuvem no céu, tudo o que Johanne é, caíra nas ruas.
Entre momentos de sonhos e devaneios permeados pelo real, acompanhamos Johanne, adolescente na casa dos dezesseis anos e sua arrebatadora paixão pela professora de francês, Johanna (Selome Emnetu). A garota com receio de perder a memória dessa paixão começa a escrever sobre sua fascinação por essa figura mais velha, sobre os encontros no apartamento de Johanna, as tardes e noites de crochê, arte que a professar domina e que acaba virando outra paixão pra Johanne. A quase coincidência dos nomes é um pequeno trunfo do roteiro (Dag Johan Haugerud como diretor e roteirista), afinal, nas paixões imaginamos o quanto o outro tem em comum com a gente, projeção nível hard.

Ao resolver dividir com sua avó Karin (Anne Marit Jacobsen; Nossas Crianças, 2019) e mãe Kristin (Ane Dahl Torp; A Meia-irmã Feia, 2025) seus escritos e, portanto, memórias, os acontecimentos tomam outro rumo com discussões bem interessantes sobre abuso sexual, maturidade afetiva e talento literário.
O fascínio que o filme exerce é justamente na forma como acompanhamos essa paixão: tudo o que aconteceu ou pode ter acontecido entre as duas, a enxurrada de emoções de Johanne é narrado em voz over pela adolescente. É como se estivéssemos degustando um livro profundamente sincero, sem medo da vulnerabilidade proporcionada pelo amor e onde o erotismo vai muito além de um corpo que faz sexo: ele está no olhar sobre o outro, no encantamento dos pequenos gestos, no desejo de desejar.

O filme é verborrágico, mas a doçura e sensibilidade de Johanne afasta qualquer exagero em sua narração. Após alguns monólogos (trechos de sua narração) a obra silencia, ficamos com a cena brevemente congelada na nossa frente, reverberando e oferecendo um respiro. E é graças à deliciosa interpretação de Ella Øverbye ― talentosa e carismática ―, que o filme não cai na armadilha do cansaço de algumas obras sustentadas pela narração, seja off ou over.

Um elemento bastante interessante é o uso de tipos diferentes de escadas, quase que funcionando como cortes que indicam em que fase emocional Johanne pode estar, como o caso de escadas labirínticas, longas demais ou o simples ato de subir e descer, apontando a gangorra de emoções de nossa heroína.

A diretora de fotografia Cecilie Semec, não vou resistir ao termo, arrasa no uso das cores e luzes, criando uma linguagem coerente entre os espaços físicos e aquilo que é fruto de uma fantasia ou da realidade. A complementaridade entre o vermelho-verde do figurino e objetos de cena, ancorados pelo belo trabalho de designer de produção (Tuva Hølmebakk) constroi a identidade de aluna e professora, no seu universo muito particular. Em vários momentos Johanne está vestindo algo verde em oposição à Johanna que está de vermelho, e vice-versa. Há em alguns enquadramentos, a presença de objetos nas duas cores, como xícaras, manta, vaso e frutas de plástico. Ao final do filme Johanne já integra as duas cores em sua roupa, até que não usa mais nenhuma delas, numa rima que supomos remeter ao amadurecimento da protagonista.
As cenas dentro do apartamento de Johanna são quentes com uso do amarelo, laranja e marrom, nos dando notícias de certo aconchego e acolhimento e porque não, erotismo. Ao voltarmos à realidade junto com Johanne nas cenas com sua mãe e avó as cores são mais azuladas, frias e geladas. A fotografia nos faz ver Johanna com os mesmos olhos que a adolescente, nos apaixonamos pela professora também. Como o uso da luz branca cobrindo o rosto de Johanna sorridente na sala de aula, numa perspectiva de alguém um tanto inalcançável e talvez por isso mesmo, perfeito. Ao final, o próprio apartamento de Johanna aparece mais frio e duro.

Ao descobrir onde a professora mora e a partir daí se conectar a ela, o roteiro (e também a fotografia) aproveitam para fazer um breve comentário político: Johanne, Karin e Kristin moram bem, mas na periferia da cidade e, Johanna, está praticamente no centro financeiro. Nossa protagonista nunca andou por essas bandas e há aqui um show de imagens de Johanne andando pelas ruas e refletindo sobre as diferenças entre os bairros (evidentemente bem diferente da lógica do que é a periferia nos países do sul global).

A trilha sonora (Anna Berg) é discreta e elegante, sem nunca tirar o foco da narração, ao contrário, enchendo-a de melancolia e contemplação. Menção especial às músicas (com nomes impronunciáveis) Motzfeldtsgate Kort e lang nas cenas de andança pela cidade: seu arranjo de cordas e tambores nos deixa em inquietação pelo que está por vir. Atravessar a cidade para se encontra com o ser amado é uma das mais deliciosas aventuras. Os efeitos sonoros são um convite especial ao íntimo de Johanne. Ao se afastar de seu bairro em direção à casa da professora, percebemos que as ruas silenciosas são transformadas aos poucos em um burburinho de buzinas e vozes indicando a efervescência do próximo encontro.

O roteiro acerta ao nunca deixar claro se o que foi narrado/escrito por Johanne é a verdade dos fatos, o que foi inventado ou vivido (o inventado pode ser também o vivido?) e é justamente isso que cria uma rusga entre mãe e avó. Outro acerto é a substituição dos diálogos entre aluna e professora pela narração da primeira, valorizando o sensorial: o experimento das roupas, a sutileza do toque ao ajeitar uma manga, a arte do crochê, os sorrisos e olhares.

Johanne confia primeiramente à avó Karin a leitura de suas memórias já que esta se mostra mais progressista e é escritora de profissão. Depois, o camalhaço chega à Kristin, sua mãe. Entre o assombro de ter havido um abuso sexual ao encantamento da escrita maravilhosa da neta, o certo é que as duas mulheres são invadidas por suas próprias memórias, amores bem e mal vividos, a efervescência sentida pela epiderme em paixão.
A obra não se furta de momentos cômicos, como o hilariante diálogo entre Karin e Kristin na qual o filme Flashdance é uma obra ofensiva ao feminismo segundo Karin; já para Kristin, ficou o trauma de ser criticada pela mãe por gostar do filme aos dez anos de idade. Ou quando as duas esquecem completamente que Johanne está na sala e a discussão é sobre publicar ou um livro com as suas memórias.

A delicadeza e a profunda humanidade faz desta obra premiada com o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim em 2025 mais um indício do maravilhoso cinema norueguês. Nos apaixonamos com a Johanne, rimos e nos irritamos com Kristin e Karin, arrancamos a Johanna do pedestal após o encontro entre esta e Karin num café, num diálogo cheio de nuances, mas sempre na perspectiva de que é justamente nas falhas e vulnerabilidades que essas personagens são tão interessantes.
Um pendrive esquecido na poltrona do terapeuta, um encontro inusitado com um convite prontamente aceito para um café, uma cidade finalmente ensolarada, podem retratar o crescer, o maturar, não sem se rasgar completamente. Se apaixonar sob o custo da decepção consigo e com o outro; ruir-se e desabar na rua para se reinventar. Não seria sobre isso a dor e delícia de se viver? Para Johanne e sua adolescência sim. E também para essa avó e essa mãe que através da escrita fluida e surpreendente da filha/neta, podem celebrar o que foi bem vivido, mesmo que findo. Precisamos da fantasia, pra viver uma vida bem vivida.

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Curiosidades: Cecilie Cemec, diretora de fotografia, trabalhou em toda trilogia: Sex, Love e Dreams
Trilha Sonora do filme




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