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Crítica |Surda (Sorda), 2025/Espanha

O mundo dos ouvintes e seus sons ensurdecedores


“Todas as mães precisam de ajuda. Você mais que qualquer uma”



Nos cinemas Filme estreia em 20 cidades, com legenda descritiva diretamente na tela em todas as sessões, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta. O filme é distribuído pela Retrato filmes


cartaz
cartaz

À medida que passamos a adotar o letramento feminista, antirracista, anticapacitista, observamos o mundo sob uma outra perspectiva, e situações que antes eram plenamente normalizadas, começam a nos chocar. Muitas vezes a reação de choque nem é tão racional assim, mas algo do incômodo começa a fazer moradia em nós. Os atravessamentos de raça, classe e gênero começam a fazer sentido, e é graças a essas novas perspectivas que não nos furtamos mais a questionar àquele tipo de maternidade único e imposto às mulheres.


Ao nos debruçarmos sobre essas discussões, reavaliando o papel dos cuidadores, e ampliando o debate em torno do papel do homem como pai, impossível não cair naquele provérbio de origem específica ainda não sabida, mas suposto africano: “é preciso uma aldeia para criar uma criança”.


A frase de Elvira (Elena Irureta, Pátria, 2020) mãe de nossa protagonista Ángela (Miriam Garlo), pessoa surda, que coloquei no subtítulo desse texto, faz todo o sentido em sua primeira parte e me remeteu imediatamente ao provérbio africano. Entretanto, sua segunda parte destrói a primeira, e isso é demonstrado nesse interessante e cativante filme de Eva Libertad em seu primeiro longa, que também assina o roteiro juntamente com Clara Serrano Llorens.


Àngela no seu trabalho como artista plástica. Seus colegas sabem o LSE
Àngela no seu trabalho como artista plástica. Seus colegas sabem o LSE

A segunda parte da frase é capacitista e, seja de forma inconsciente, sem querer, sem intenção, seja lá qual desculpa podemos dar, concordamos com Elvira ao menos no instante dito. Ou podemos também acessar o estranhamento, aquela sensação de que, algo não está certo aqui. Sorda nos fala sobre exatamente isso: há mesmo uma linha tênue entre reconhecer as dificuldades de pessoas surdas e o capacitismo?


O casal Ángela e Héctor (Álvaro Cervantes, Hanna,2011) está grávido e há expectativas e inquietação com o nascimento desta criança que pode ser ouvinte ou surda.


Já nos créditos percebemos que não há som nenhum na tela, escolha sonora repetida ao final do filme. Logo em seguida conhecemos Ángela e sua cadela Luka no meio de uma caminhada pelo mato até chegar numa lagoa provavelmente alimentada por uma cachoeira ― esta, só veremos mais tarde. Ángela e seu companheiro Héctor nadam com tranquilidade e amorosidade enquanto convencem Luka a mergulhar com eles. Em seguida, em uma cena de pura cumplicidade descobrimos a surdez e a gravidez de Ángela, assim como o fato de que Héctor sabe a língua dos sinais espanhola (LSE), embora seja ouvinte.


Almoço em família. Outro membro vai se juntar em breve
Almoço em família. Outro membro vai se juntar em breve

O roteiro ágil e sucinto de Clara Serrano vai apresentando a vida ordinária, no melhor dos sentidos, do casal e seu entorno. E o entorno deles é formado muito mais por pessoas surdas do que ouvintes, o que para mim (ouvinte, porém surda pra muita coisa :( ) foi uma delícia de se ver. Essa vida cotidiana aos poucos, com imagens sutis, comentários discretos e através de um elenco afiado, vai sendo descortinado com os pequenos capacitismos, as angústias sobre a possibilidade de se ter um bebê surdo e toda uma sociedade que invisibiliza essas pessoas.


Há por parte de Ángela uma dúvida sobre contar ao seus pais sobre a gravidez, e ela estava certa. A reação imediata de Elvira assim como Fede (Joaquín Notário), seu pai, pessoas ouvintes, foi de apreensão, considerando que a condição de Ángela é congênita como fica claro em outro momento.


O trabalho de montagem da obra, Marta Velasco (A Pele Que Habito, 2011; Julieta, 2016; Os Amantes Passageiros, 2013) é um primor para mostrar a passagem do tempo. Mostrando o essencial dos acontecimentos, acompanhamos de forma bastante fluida e sem nos perder na estória, a escolha do nome da criança, as preocupações do casal sobre se a bebê ouvirá, o passar da gravidez, o nascimento de Ona (numa cena das mais angustiantes e baseada na experiência de inúmeras mulheres surdas), seu crescimento, as primeiras palavras (e sinais), a creche e o impasse na sua criação. Tudo isso embalado numa fotografia simples (Gina Ferrer, O Operário, 2011; Biutiful, 2010), mas nem por isso menos importante. O filme é iluminado, com uma granulação que combina com a comunidade na qual eles vivem, ao mesmo tempo rural e urbana, mas uma urbanidade delicada. Confesso que invejei bastante a casa do nosso casal (outro trabalho ótimo da direção de arte, Anna Auquer) e seu entorno.


Ao se estabelecer o capacitismo dos pais de Ángela ao saberem da gravidez e a cena na qual os três vão comprar um aparelho de monitoramento de bebês, que seja adaptado às pessoas surdas, que a obra toma outro rumo bem mais interessante que abordar apenas a limitação ― bastante profunda, de nós ouvintes em relação aos surdos.


Os momentos de inclusão total.
Os momentos de inclusão total.

Enveredamos por caminhos mais internos da protagonista ― seus medos muito mais moldados pelo preconceito das pessoas ao seu redor do que de uma praticidade da vida, e seu apagamento diante da filha. E é justamente neste aspecto da dor, dela e, espero, da nossa, que o filme aprofunda seu ponto de vista.


Não há vilanização dos personagens. Ao constatamos o capacitismo de Elvira e da médica, numa cena bem didática, sentimos raiva, mas o sentimento se dissipa ao também entendermos o outro lado. Héctor é o marido dos sonhos de qualquer mulher, cis ou trans, e porque não, de qualquer homem gay. Perfeito, companheiro, aprendeu a língua dos sinais, transita entre os amigos de Ángela divinamente e pai dedicadíssimo e presente.


Porém, essa perfeição se transforma numa forma de deixar Ángela à parte, que se sente incapacitada de cuidar da filha. A personagem emprega esforços sobre-humano para educar Ona na linguagem dos sinais desde pequenininha, a ponto de cometer alguns excessos no uso de bafador de ruídos, cena que desencadeia uma discussão profundamente desesperadora entre o casal, numa mise-en-scène muito bem arquitetada.


Não poderia deixar de comentar as inúmeras cenas divertidas e porque não, didáticas (mas sem diálogos expositivos óbvios e chatos) dos encontros de Ángela e seus amigos surdos. Descobrimos o porquê de se não usar os aparelhos auditivos, algo que Ángela se recusa veementemente, apesar de usá-lo algumas vezes de forma desastrosa. Sobre esse aspecto fui jogada diretamente no ótimo filme O Som do Silêncio de Darius Marder (Sound of Metal, 2019).


Assim como entender o porquê das mães de um dos personagens adolescentes não permitir que este use a vocalização quando está na presença de maioria surda, já que ele tem o mundo inteiro falante, ouvinte tagarela e matraca ao seu dispor. São nessas cenas também que fica o recado que nós ouvintes somos os invisibilizados da vez, uma oportunidade de refletir o que isso significa pra gente.


Impossível não se emocionar com o canto em língua de sinais de parabéns no aniversário de Ona ou quando a primeira palavra dita pela bebê ecoa numa emoção não possível de compartilhamento por Ángela, mas, esta é compensada de forma magnífica ao final do filme. Não é necessário malabarismos estéticos ou discursivos para que experienciemos beleza tanto na dor como na alegria, ambos breves e significativos.


E não, eu não vou fazer referência ao filme Coda – No ritmo do Coração de 2021. Aqui se trata de um trauma coletivo que não superei.  


O desafio da criação, seja na aldeia ou no núcleo exclusivo da família patriarcal
O desafio da criação, seja na aldeia ou no núcleo exclusivo da família patriarcal


Curiosidades: A atriz Mirian Garlo é irmã da diretora Eva Libertad (https://cinemarden.com.br/surda/)

A roteirista Clara Serrano Liorens tem apenas 28 anos e tem em seu currículo dois filmes na direção como também roreirista: L’etad imminent de 2024 e Corredora de 2026, ambos indicados e vencedores de prêmios (https://www.imdb.com/pt/name/nm14088110/ e https://faberllull.cat/en/resident.cfm?id=41808&url=clara-serrano-llorens.htm)

Elena Irureta é uma atriz basca (País Basco) e protagonizou uma séria muito boa sobre o ETA em 2020, Pátria, disponível da HBOMax.


Elenco: Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta e Joaquín Notario


Ficha técnica

Direção e Roteiro: Eva Libertad

Produtores: Miriam Porté, Nuria Muñoz Ortín e Adolfo Blanco

Produção Executiva: Miriam Porté, Nuria Muñoz Ortín, Amalia Blanco e Gerard Marginedas

Produtores Associados: Manuel Monzón, Fernando Riera e Adrià Miró

Direção de Fotografia: Gina Ferrer García

Montagem: Marta Velasco

Direção de Elenco: Irene Roqué

Direção de Arte: Anna Auquer

Som: Urko Garai

Desenho de Som: Enrique G. Bermejo

Mixagem: Alejandro Castillo

Música Original: Aránzazu Calleja

Figurino: Desirée Guirao e Angélica Muñoz


Cabelo e Maquiagem: Mercedes Carcelén López e Cristina Gómez Marquina

Gerência de Produção: Goretti Pagès

Assistente de Direção: Miguel Gago

Produtoras: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films












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